Por Coelho Neto (1897)
Amolecida, alquebrada, olhava com desânimo os outeiros ainda longínquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cansaço. José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso:
- Estamos a chegar. Lá aparecem as casas de Belém; as luzes brilham por entre as árvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.
Ela parou, ficou a olhar o céu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem.
- É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que não sei se poderei acompanhar-vos até as colinas de além. toda eu esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas ervas, e dormir um sono grande.
Nunca me pesou tanto o corpo, o próprio espírito pesa-me, tão carregado está de medo e de cuidados sombrios.
Que será de mim e d’Ele ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de tudo, à friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal?
O chiar de um carro levou-lhes a atenção para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda:
Ervas do campo florido,
Que aroma! que trescalar! Bem se vê que o seu vestido Andou por vós a roçar.
Outeiro em flor, o teu velo,
Verde e fino, ao meu ciúme Confessa que o seu cabelo Deixou nele o perfume.
O carro apareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acácias.
José dirigiu-se ao carreiro, robusto e moço, e pediu-lhe passagem para Maria, mostrandoa, prostrada e lânguida, entre o rosmaninho cheiroso.
O moço acedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram.
E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d’aguilhada ao ombro, olhos fitos no céu, insistia na égloga:
Ervas do campo florido,
Que aroma! que trescalar! Bem se vê que o seu vestido Andou por vós a roçar.
NA CAVERNA
Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse:
- Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e fácil, guia-vos a Belém. Seja o Senhor convosco.
Sem esforço, José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E ele, galantemente, respondeu:
- Trouxe a flor viva do trigal ceifado, e, com tão jeitosa resposta, despediu-se e foi-se, aguilhada ao ombro, devagar, à frente dos bois, cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.
Os dois caminharam alguns passos. Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida de sofrimento; mas não pode ir além da caverna e deteve-se.
O áspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao trêmulo flamejar duma fogueira junto à qual um velho pastor, de mãos estendidas ao lume, cantarolava baixinho. Ovelhas ondulavam na sombra.
Logo à entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma manjedoura. Um jumento dormitava e, junto dele, ruminando, jazia deitada uma vaca com o seu novilho. Disse José à Maria:
- Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em alguma estalagem. Ela sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos foram para a caverna. O patriarca, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor. - Seja o senhor convosco! - Bem-vindo seja o que chega e desce com os olhos até a minha humildade.
- Hóspede na terra, venho de longe e comigo, em estado que não consente esforço, trago minha esposa, que aqui vedes. Se permitirdes que ela fique um momento convosco enquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos há de louvar.
O velho pastor, de fartas barbas amarelecidas, longos cabelos espalhados pelos ombros, que um melote cobria, soergueu-se e falou:
- A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar.
- Ela fica, eu sigo pela pousada. Maria tímida, entrou. Logo o pastor acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha. E o patriarca partiu.
Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, que não lhe foi difícil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.
Logo à entrada, sob o vasto alpendre, viu as altas pilhas de fardos, e, em volta, estendidos em peles, mercadores e recoveiros. O hóspede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:
- São homens que se aboletam ao relento, por falta de cômodos. Dificilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas atraíram grande mó de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José prosseguiu. Nas vielas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras.
Debalde o ancião entrava nas estalagens. As próprias choupanas recebiam hóspedes e, pelas colinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem êxito
Já o silêncio anunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo à caverna.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.