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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Estás moralista, disse Ruy Vaz, sorrindo. As mulheres, debruçadas às janelas, entre as cortinas, algaraviavam. O olhar, penetrando, dava imediatamente com os leitos muito lisos, muito alvos, ao fundo dos quartos entreabertos e iluminados. Não contentes com a exposição dos corpos ainda chamavam os transeuntes, atiravam-lhes botes e era em toda a ala, nos pavimentos térreos e nos sobrados, um rinchavelhar devasso de centenas de criaturas e aquilo lembrava uma cena de mercado oriental onde acudiam piratas levando mulheres de todos os países, expondo-as nuas, apregoando-lhes a beleza, obrigando-as a falar, a cantar para que os azevinheiros, que as andavam examinando, não só lhes vissem as formas sensuais, como também lhes ouvissem o timbre fresco e cantante da voz.

Umas fumavam; outras, já velhas, encarquilhadas, tristonhas, recaídas sobre o umbral, com a cabeça derreada, os olhos no céu, pareciam enlevadas e maquinalmente chamavam os que passavam perto, estendiam com vagar a mão, mas logo quedavam vendo-se desatendidas e baixinho, de novo elevando os olhos, repunham-se a cantar.

Pensavam, talvez, na pátria que haviam deixado, iludidas pela falácia do rufião. Pensavam nas suas pobres cabanas, nas aldeias geladas... Reviam-se na infância, levando o gado aos montes ou seguindo com a foicinha o bando dos ceifeiros para os campos de trigo ou de feno, nos dias alegres do outono. Pensavam nas noites tristes de bravio inverno, noites de vento e de neve quando, junto à brasa viva da lareira, os seus velhos parentes falavam da miséria pedindo a Deus um dia, ao menos, de sol para que os pequenos pudessem ir à orla da floresta recolher um pouco de lenha, que não havia para mais de uma noite e, quando a não houvesse, que seria deles, pobres velhos! E que seria das míseras crianças!

Pensavam e o peito subia-lhes em arfar angustioso... É que haviam visto, muito longe, alguém, alguém que, quando virgens, tanta vez saíram a esperar numa volta do caminho, quando o sino soava a hora crepuscular; alguém a quem haviam jurado amor e a quem haviam traído deixando-o pelas promessas enganosas do homem que as fora arrancar, para sempre, à felicidade e à honra.

Ah! mas era preciso viver... Gente passava. "Vem cá! Olha..." diziam molemente as desgraçadas com leve tremor na voz.

Outra, sentada numa cadeira de balanço, cochilava e, pela janela entreaberta de uma casa, Anselmo viu, não sem espanto, outra, em camisa, braços nus, pernas nuas, indo e vindo disfarçadamente, a abanar-se.

— Que cinismo...! Rapazes paravam às portas, chalaceavam e, de repente, fugiam a rir perseguidos por uma saraivada de impropérios e, como há uma forte solidariedade entre essas mercenárias, de janela a janela a indignação corria e todas, enfurecidas, injuriavam os que haviam, por troça, irritado a companheira que ainda esbravejava indignada, ao longe.

E vagaroso, os braços para as costas, o cigarro nos beiços, o soldado da ronda passeava sem dar atenção à balbúrdia, surdo às obscenidades que explodiam ao longo daquela feira torpe. Ruy Vaz parecia indiferente a tudo. Ia de olhos baixos, sem dar atenção aos reclamos indecorosos que lhe atiravam as mulheres.

— Isto aqui, meu amigo, é mais perigoso do que o caminho que levava ao sítio encantado onde havia a árvore que cantava, o pássaro que falava e a água amarela. Deve-se passar por esta calçada com os ouvidos atochados de algodão para que nos não suceda o que sucedeu aos irmãos da princesa Parizada, que foram transformados em pedra.

— Não é preciso recorrer às Mil e uma noites para buscar um modelo de energia. Temos aqui a polícia, mais indiferente aos escândalos do que Ulysses à voz das sereias ou do que a tal princesa ao clamor das pedras.

Espera aqui um instante. Haviam parado diante de um charuteiro. Ruy Vaz entrou deixando Anselmo à porta. O estudante lançou os olhos pela praça. Duas filas de tíburis reluziam à fulguração do luar. Sons de música vinham de longe, em ondulações, ora brandas, ora fortes, conforme as variações da brisa. Cocheiros discutiam na calçada; passavam famílias à pressa, caminho dos teatros. Quando Ruy Vaz saiu com um embrulhinho, Anselmo estava distraído, de olhos perdidos, cantarolando.

— Vamos?

— Vamos. Seguiram para a rua do Espírito Santo, iluminada pelas grandes rosáceas dos teatros. Ao fundo o Recreio resplandecia como a entrada de um templo. Um homem esgoelava-se anunciando "empadinhas de camarão!" e os cambistas assaltavam os que apareciam oferecendo bilhetes, garantindo que na casa não havia número que prestasse.

À porta do Sant'Ana uma multidão apertava-se. Discutia-se e os cambistas investiam como pobres em adro de igreja, empurravam-se, injuriavam-se. Anselmo deteve-se um momento diante do bilheteiro; Ruy Vaz, porém, tomou-o pelo braço:

— Não, vem comigo; não precisas bilhete. Vamos.

(continua...)

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