Por Raul Pompéia (1880)
— Os infames, dizia, querem forçar-me a fugir... E donde! Da minha casa! Eu! Deixar o que me pertence, meus amigos, o meu teto, minhas recordações! Nunca! Mas, ah! Branca deseja partir... E tem razão... tem medo. Eu também já quis sair desta casa, pois estava aterrado. Acabei por mudar de resolução, porém Branca não mudou...
"Talvez me submeta a sua vontade, mas antes disso vou tentar uma cousa... Tenho um plano... Não conto, infelizmente com o inepto subdelegado; irei pois, só com os paraenses. Hei-de ir! Hei-de ir, e hei-de saber ao certo quem me persegue.
Ah malvados!"
Ia-se tornando tarde, porém, Eustáquio não estava em si, não via as horas.
A sua meditação intercortada de frases já durara algum tempo. Ele ergueuse e foi para a cama com a intenção de dormir. Conseguiu apenas deitar-se, levantando-se logo a retomar na rede o seu primitivo lugar.
Aí, com as mãos cruzadas sustentando a testa e com os cotovelos enterrados nos joelhos, permaneceu ainda.
Deu-se então uma circunstância mui importante, que o marido de Branca teria notado se a sua atenção não se achasse tão longe do seu quarto.
Acima do parapeito de janela aberta, que se alargava no fundo como uma tela negra, apareceu a extremidade de uma vara e quase imediatamente desceu.
Mais ou menos às cinco horas da madrugada principiou o dia a despontar. Eustáquio, sem mesmo saber como passara a noite, chegou-se à janela.
A vidraça estava suspensa, ele inclinou-se para respirar as exalações do prado.
Viu a estrela d'alva cintilando um pouco por sobre a montanha, cuja base jazia ainda nas trevas, e aos últimos clarões da vela que já desaparecia, vacilando no orifício do castiçal, reunidos à luz lívida e fraca que começava a se espalhar pela planície, distinguiu um pedacinho de papel sobre a janela.
Estava umedecido pelo orvalho e Eustáquio querendo retirá-lo rasgou-o em dous.
O ex-subdelegado, que não dera ao papel grande atenção, viu logo algumas letras e ligando as duas porções leu este aviso, laconicamente amedrontador:
Sentido! Ides ser atacado seriamente. Um amigo.
— Ainda o meu defensor! exclamou Eustáquio, é ele quem me dá uma notícia. Porém o que ele diz é incrível!
Releu cuidadosamente o aviso e voltando-se para a janela gritou:
— Por quem és, ente das sombras, apresenta-te, que te quero entregar a minha vida em recompensa da tua dedicação!
Mas quem depositara o papel sobre a janela já ia longe. Branca que ouvira as vozes do marido já estava no quarto e perguntava:
— Que papel é esse?
Eustáquio escondendo o papel olhou espantado para a mulher e só depois de alguns momentos disse:
— Não é nenhum escrito importante.
— Não creio, quero ver, tornou Branca, aproximando-se do marido.
— Eu não lhe queria revelar, mas se o exige, leia, terminou Eustáquio entregando a Branca os dous pedaços de papel.
A moça, naturalmente medrosa empalideceu à vista do aviso e não pôde deixar de perguntar quem o entregara.
— Que homem benfazejo! disse, quando obteve resposta.
Pouco depois ouviu Eustáquio dizer-lhe:
— Branca, é impossível partirmos já, porque nem há embarcações agora, no povoado, mas hoje à noute eu irei examinar essas matas a fim de tirar as onças do esconderijo...
— Não, eu não consinto! gritou ela, não deixarei você arriscar a vida inutilmente.
— Inutilmente! Então você acaba de ler o aviso e não vê que estamos em perigo! Quer que morramos todos? Eu irei e hei de ser prudente.
— Ah! Vá, mas eu ficarei tremendo.
— Tenha paciência, minha Branca, é a única cousa que posso fazer. Ir atacar antes de ser atacado.
Retirou-se Branca deixando Eustáquio a ruminar o plano da exploração.
Pelas três horas da tarde o tempo mudou. Uma poeirinha líquida começou a cair.
— O tempo é o mais propício possível para a minha expedição, observou Eustáquio.
— Ou para nos virem atacar, acrescentou Branca.
Rosalina já soubera das intenções do seu protetor assim como do aviso que lhe chegara às mãos, porém não sentira por si, a menor emoção.
Tinha a alma familiarizada com a desventura, nada temia. A desgraça é como tudo neste mundo, tantas vezes a vemos que finalmente já não nos impressiona. Rosalina a vira em toda a sua fealdade.
A jovem que viera do povoado acabava de voltar para lá, porque o exsubdelegado, julgando-se em vésperas de partir a despedira.
E o filhinho de Branca agitava-se contente no fundo do berço.
Apenas findou-se o dia, o subdelegado dispôs-se para a excursão.
Escolhera a noite para o proteger com suas sombras visto que a lua em minguante só mui tarde devia nascer.
Depois de armar convenientemente os seus homens e de se agasalhar contra a umidade da noite, abraçou a Branca, fez estalar um beijo na testa de sua protegida, beijou ainda o menino seu filho e saiu.
Quatro lágrimas brilharam-lhe nas extremidades dos olhos.
Entregou a Ruperto a guarda da casa, partindo logo que viu fechar-se atrás de si a sólida porteira do cercado exterior.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.