Por Raul Pompéia (1882)
— Eu respondo, pelo resto... Apareça ou não a polícia, asseguro-lhe que não nos sucederá coisa alguma... Neste negócio a polícia há de fechar os olhos... Você verá... E, para tranqüiliza-lo de todo... Eu sou um homem indispensável ao duque... Ele não me fará mal algum, por conseguinte não fará aos meus companheiros de pândega... Fique sossegado...
E Manuel de Pavia, sempre como o seu cofre, saiu para o jardim, deixando Inácio na sala. Quando este ia fechar a porta, o ladrão inclinou-se para ele e disse, à meia-voz:
— Não haverá nada... O homem tem medo de mim.
CAPÍTULO VII
Não tivemos ainda a honra, nem a ocasião de apresentar ao leitor o milionário senhor da quinta de Santo Cristo, o sr.duque de Bragantina.
Agora que vamos encontrá-lo figurando ativamente nas meadas da nossa narrativa, apressamo-nos em fazer a necessária cerimônia.
Atravessemos, embalados maciamente na arfagem sonolenta de uma barca a vapor, as ondulações bonançosas da vasta e serena baía de Paranaguá.
Galguemos a encosta daquelas montanhas alterosas, denteadas, que mordem o firmamento ao longe. Penetremos os cerrados de floresta que aveludam de verde o esqueleto rude, vulcânico, daquelas cordilheiras.
Quando estivermos perto daqueles vapores que vestem-se de ouro a romper do dia e que choram sangue ao fugir da tarde: logo que sentirmos a frescura invernal das serras penetrar-nos o tecido da roupa; quando sentirmos intensamente o perfume da mataria a deliciar-nos o olfato, subindo das grotas no meio de lufadas de nevoeiro como do fundo de enormes turíbulos... nessa ocasião, atravessemos um olhar por entre os arvoredos, que havemos de lobrigar, estendida no meio de um vale, no lugar onde devera existir antes a fita cristalina de um regato, sorrindo aos ventos que a bafejam e às flores que as matas atiram sobre ela, havemos de ver um retiro de prazeres, que se chama uma cidade.
É aí Anatópolis.
Um outro parque de Santo Cristo. Anatópolis é a continuação da quinta do duque de Bragantina. Quando há muito calor no palácio da quinta, o duque de Bragantina passa a baía de Paranaguá e vai buscar refrigério em Anatópolis.
Ao tombar do dia ou pela manhã, um homem aparece, em tempos de verão, a passear pelas arejadas ruas da cidade.
Vai todo de branco, coberto por um amplo chapéu de Chile, fresco como o vestuário. É de uma estatura bonita e excepcional. É velho. As barbas envolvem-lhe o rosto em flocos admiráveis de nevada brancura. O rosto possui ainda uns matizes róseos de mocidade. Tem os olhos pequenos e azuis e usa óculos, uns veneráveis óculos de grossos aros de tartaruga.
Ao redor desse homem, apertam-se muitos amigos, desfazendo-se em cortesias e obséquios.
Se a um destes o leitor perguntar quem é aquele velho, ele dirá espantado:
— Oh, não conhece! É o senhor duque de Bragantina!
É o duque exatamente. Vai caminhando pela rua satisfeito, dirigindo aos que o cercam gracejos e pilhérias, com a voz aflautinada que o caracteriza.
Quando passa por alguma rapariguinha gentil que lhe sorri de uma janela, ele faz-lhe um cumprimento bem desenhado, vai dissertando sobre um assunto qualquer. Ou seja a explicação pela física da propriedade que tem a água de molhar, ou a virtus dormitiva do ópio. Não gosta dos assuntos transcendentais nem de objeções impertinentes; discute para conversar, só para isso. E os amigos o compreendem, não o contrariam.
Por alguns momentos de observação pode-se saber quem é o duque de Bragantina. A roda de amigos que o envolve diz-nos que ele é rico e poderoso; o cumprimento galante à rapariguinha da janela indica-nos que ele é inclinado ao sexo das belas; a sua conversa mostra-nos, pelo objeto, que ele gosta da ciência; pela dissertação, que ele não a cultiva; pelo ar de imposição com que fala, conhece-se que ele não admite obstáculo diante de si.
E tudo é verdade. Herdeiro do sangue orgulhoso de uma extensa cadeia genealógica de requintada fidalguia , nasceu o duque da Bragantina com todas as predisposições para o mando. Seu pai foi um cavalheiro educado nas páginas dos Lusíadas; lera o poema dos lusos e decorara o canto nono; daí a vida que levara de bravuras épicas e galantes e fora um Leonardo que nunca deixara escaparem
Efires.
Filho de tal pai e continuador de tais fidalguias, era impossível que no caráter do duque de Bragantina não se fundissem os arrojos, as sensualidades paternas com as arrogâncias da raça.
Na idade de quatorze anos, tendo perdido o pai aos cinco, depois de uma educação viciada pela flexibilidade bajulatória de alguns dos seus eduvadores e pela violência ofensiva de outros, que deram ao menino uma duplicidade de gênio, ora arrogante para uns, ora humilde para outros, começou a imiscuir-se o jovem fidalgo na gerência da sua vida e dos seus haveres.
A fortuna do duque era colossal. Facilitava-lhe uma vida principesca. Conseguindo libertar-se dos tais educadores impertinentes, viu-se o moço entregue à própria natureza e às adulações dos seus áulicos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.