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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Quando chegaram à rua Direita ainda havia sombra noturna. Italianos seguiam em grupos com os cestos pendentes dos paus. Carroças rodavam vagarosas, parando aqui, ali. Os três tomaram pelo largo do Paço. Montezuma, enfezado, resmungava:

— Que já não era homem para aquelas estroinices, estava com cinqüenta anos, era tempo de tomar juízo. Que havia de dizer em casa quando aparecesse? Contava com a guerra civil. Sempre que fazia alguma ao voltar caíam-lhe todos em cima: a mulher e os filhos, e era uma grita de enlouquecer. E com razão. Um homem como ele devia dar-se a respeito. Que diriam se o vissem, àquela hora da manhã, batendo a calçada, em troça?

— Ora, Montezuma! Deixa-te de escrúpulos. A vida é isto. — Pois sim.

Chegavam ao largo do Paço.

Ao fundo, no mar, confundindo-se com as estrelas, luziam faróis de barcos e o relógio da companhia Ferry, iluminado, parecia uma grande lua muito baixa. Uma carroça, atulhada de verdura, passava aos solavancos. Tiniam campainhas e, de longe, no ar, vinha o cheiro acre da maresia. Cães rosnavam nos monturos. O mercado acordava. As diferentes barracas enchiam-se e, à luz do gás, os mercadores iam arranjando a hortaliça verdoenga, empilhando molhos de alface, de agrião, de couves. Os repolhos rolavam nos cestos, os rabanetes e os nabos confundiam-se e, constantemente, iam e vinham carregadores, com enormes cestos acogulados: arriavam, descarregavam e iam, a trote, algaraviando e rindo. Bácoros coinchavam, grasnavam patos, ganiam cães e os galos, pressentindo a manhã, cocoricavam triunfantemente. Uma negra, sentada num tamborete, mexia, com imensa colher de pau, a panelada de angu; outra adiante, cercada de negros e pescadores, enchia canecas de mingau de tapioca, respondendo, com calma, aos gracejos da freguesia. Nos açougues a carne sangrenta destacava-se: eram metades de reses, carneiros e porcos estaqueados e, no cepo, os homens iam esquartejando, espostejando a manchil e logo corriam aos ganchos espetando os grandes quartos que ficavam oscilando e sangrando.

— Onde vamos nós?

— Às ostras.

— E já haverá?

— Como não? Há ostras como há médicos: a qualquer hora do dia ou da noite, afirmou Montezuma. Eu conheço isto. Vamos ver o grego.

— Que grego...?

— Um que aqui há, do Pireu. Vende ostras quando não está na Detenção, ou no júri. É homem que abre barrigas com a mesma facilidade com que Hércules estrangulava leões. Dou-me com ele. — Pois vamos lá ao grego.

Chegaram à praia justamente quando começava o leilão de peixe. As canoas, enfileiradas na rampa, estavam abarrotadas de pescado. Uma multidão fervilhava em volta, discutindo, berrando. Eram gritos, impropérios, pragas, ameaças e, vencendo o rumor, a voz tonitroante de um alentado cabo-verde apregoava. Em grandes cestos, em cambulhada na rampa, homens faziam escolha de ostras, abriam-nas entalando-lhes o facão entre as valvas e, arranjando-as em tampas, apregoavam: "Ostras frescas! Mariscos!"

— Vamos ao grego. E Montezuma encaminhou-se para o sítio em que estava o primeiro tabuleiro, mas deteve-se:

— Oh!

— Que é?

— Não é o grego. Querem ver que já está na Detenção?

Um homem alto, barbado, abria as ostras com um facalhão. Montezuma abordou-o.

— Bom dia, patrício.

— Deus lhe dê bom dia.

— Sabe dizer-me se o grego ainda vive?

— O grego...? Vossoria quer falar do Alexandre...

— Não sei se é Alexandre: o grego.

— Sim, senhor: o grego, é como l'o chamam. Ah! Foi filado desde pelo carnaval.

— Foi filado?!

— Sim, senhor. — Está preso?

O homem, sempre a abrir as ostras, encolheu os ombros.

— Que quer vossoria... a polícia mete-se em tudo. A gente tem uma quistãzinha com um camarada, às vezes intê amigo e, cando mal se precata, está aí a patrulha com maus modos, azangando tudo...

— É verdade, apoiou o Neiva. Se não fosse a polícia não haveria tantos conflitos como há. O elemento de ordem é o principal desordeiro.

— Tal e qual! Vossoria fala como um adbugado.

— Mas que houve com o grego?

— Que houve...? O que há sempre... Vossoria sabe, quem se mete com mulher fica com um pé cá fora e outro lá dentro. O Alexandre, em vendo mulher, até esquece o nome. Aqui assim ao lado ficava um rapazinho que tinha um diabo de mulata que até fazia tonteiras, palavra de honra; a gente punha-lhe os olhos em cima e aquilo era uma vez. Vossoria quer ostras? Estão frescas.

— Sim, queremos.

— P'ros três? Isto é um maná p'ro peito. Olhe, aqui vem todas as manhã um moço doutor que esteve disinganado, porque a tísica lhe comeu um pulmão, lá nele. Não tomou drogas, não Senhor, veio às ostrinhas e está que é um texugo: até parece que tem agora quatro pulmões. Se algum dos senhores tem moléstia do peito, não queira saber d'óleos de fígado, nem d'oitras mixórdias, atice-lhes... uma ou duas dúzias d'ostras pela manhã e um calixto do bom, e diga-me depois se o Timóteo tem ou não olho p'rá coisa.

— Chama-se Timóteo?

— De Azevedo e Almeida, p'rá servir a vossoria.

— Mas vamos ao caso do grego.

— Ah! Sim, ao caso do Alexandre... Mulheres, mulheres.

— O diabo são — disse sentenciosamente Anselmo.

(continua...)

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