Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Quando deixaram o escritório da Cidade do Rio, lentos, curvados como enfermos, ainda erravam entusiastas e alguns tão desequilibrados que começavam um viva numa calçada e iam terminá-lo na outra.

Sentados nas soleiras das portas, populares estafados faziam guarda às botinas ou resmungavam cabeceando. Como em cidade que se prepara, às pressas, para um assédio, em todas as esquinas havia montes de sarrafos e de tábuas; homens subiam por escadas altas e à luz fumarenta e escura de candeias, martelavam com fúria, cantarolando, assobiando.

No Largo de São Francisco um grupo, com violas e flautas, em zangarreio jocundo, atraía a atenção dos retardatários; e como uma voz fanhosa, que acusava zangurriana, levantasse um viva a José do Patrocínio, o abolicionista tremeu aterrado, e para que não fosse conhecido acolheu-se escondidamente aos companheiros, assombrado, pedindo, em voz surda, que não o deixassem exposto, o livrassem de mais um discurso e demais abraços. Passaram sem que os da serenata vissem o tribuno. Junto, porém, ao pátio exterior da Escola Politécnica, um noctâmbulo. reconhecendo-o, levantou o chapéu acima da cabeça e escancelou a boca, mas não pôde gritar: Montezuma, furente como Ajax, agarrou-o pelo colete e, com voz temerosa e rouca, ameaçou-o:

— Se grita, morre!

Mas o homem, de olhos esbugalhados, explicou que ia levantar um viva ao grande brasileiro.

— Aqui não há grande brasileiro, não há nada. Só te digo que se gritas morres...

— Então a gente não pode ter opinião?

— Não... Quarenta e seis! Sabes tu que são quarenta e seis discursos?

— Não, senhor.

— Pois sei eu que os fiz. Vai e lembra-te das minhas palavras: Nem um

viva...!

— Pois sim, senhor... Boa noite. E desculpe. — Está desculpado.

O pobre homem afastou-se intrigado com aquela agressão. Caminhava; mas, como se o entusiasmo o picasse, de quando em quando voltava a cabeça e lançava um olhar ao grupo em que se achava o abolicionista. Perto da rua da Conceição não se conteve — preparou-se para a corrida e, a plenos pulmões, lançou aos ares sossegados um estrondoso: "Viva José do Patrocínio!" Montezuma sapateou de cólera e quis sair em perseguição do recalcitrante, mas os amigos opuseram-se. Felizmente ninguém ouvira o grito. Ao longe a serenata continuava, lânguida.

— Queres saber, José? Acho melhor tomares um tílburi.

— Mas não há.

— Eu vou ver, disse Anselmo.

— E eu, ajuntou o Neiva. — Então depressa.

Partiram os dois; e Montezuma ficou acompanhando o amigo e escondendoo.

Pouco depois dois tíburis chegavam à disparada. Patrocínio precipitou-se para o primeiro, dizendo desafogadamente:

— Estou salvo!

— Boa noite!

— Dize antes: bom dia, emendou Anselmo, porque os galos começam a cantar.

— Bom dia então. Até logo.

— Não venhas hoje à cidade.

— É melhor.

— Eu, por mim, declaro que, enquanto houver festejos, não ponho os pés na rua. Estou com a garganta em mísero estado. Deixa-te ficar em casa. Já fizeste a grande obra; está a pátria livre; não queiras tu ser o cativo. Não venhas! — Pois sim. Adeus!

E o cocheiro fustigou o cavalo, que partiu a galope. Pardal, que estava fatigado e ameaçado de enxaqueca, despediu-se também.

Diante do outro tílburi ficaram os três, Neiva, Anselmo e Montezuma, discutindo o grande fato. Montezuma, porém, não achava extraordinário o acontecimento: parecia-lhe muito mais importante a sua eloqüência.

— Meus amigos, a libertação dos negros era coisa esperada, a campanha havia de ter um desfecho, mas quarenta e seis discursos de improviso... ufa! No Rio da Prata, em presença do Urquiza, numa festa política, fiz quatro brindes e todos declararam, assombrados, que eu era um fenômeno. Os jornais comentaram, e, nos salões, durante mais de um mês, o assunto das palestras foi a minha exuberância. Que diriam aqueles homens se soubessem que, num dia e sem jantar, pronunciei quarenta e seis discursos com imagens? É um absurdo.

— E eu? — exclamou o Neiva. Cheguei a fazer dois discursos a um tempo, para andar mais depressa. E Patrocínio...?!

— Ah! Mas o Patrocínio tem o hábito da tribuna.

— O hábito não faz o monge, observou Anselmo.

— Aí vem você com os disparates. Vamo-nos embora. É tarde.

— Acho que é muito cedo. Começa a amanhecer. Se fossemos às ostras, no Mercado?

— É uma idéia.

— Toca para o Mercado.

E os três, despedindo o tílburi, desceram a rua do Ouvidor, que começava a enfeitar-se azafamadamente para a celebração da grande festa. E romperam a cantar, roucos, de braço dado, seguindo a passos largos: Alions enlants de la Patrie

Le jour de gloire est arrivé...

Um bêbedo, cambaleando, levantou um viva ao Brasil e começou a algaraviar um discurso. Tiniram campainhas e, no silêncio da rua, a voz de um tropeiro, que vinha tangendo a récua, rompeu afinada e dolente: Eh! dona do xale branco, Cumu é seu coração?

S'é máu, porque me buscou, S'é bom, porque me diz não?

Eh! dona, eu não compreendo Tamanha vacilação!...

— Deixemos passar a bucólica, disse o Neiva encostando-se à parede.

E a tropa, com um alegre tinir de campainhas, passou a trote lento.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...106107108109110...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →