Por Coelho Neto (1890)
— Que é isso, Montezuma!
— Estou liquidado! Vocês arranjaram-me bonita! Cheguem-se mais, porque já não tenho voz: foi-se toda em eloqüência. Fiz para mais de quarenta e cinco discursos! Eram tantas as comissões que, duma vez, subiram quatro com oradores e então, imaginem vocês, tive de responder aos quatro. Fiz como os padres, no tempo do cativeiro, quando tinham de batizar moleques — com um só discurso respondi a todos, foi só o trabalho de mudar o rótulo. Mas estou morto... E o José?
De um canto saiu um gemido esganiçado: era o propagandista, rouco, que explicava com um dedo na garganta, que estava sem voz.
— E tu não fizeste quarenta e cinco! — exclamou Montezuma.
Patrocínio tocou castanholas.
— Mais, homem!?
Novas castanholas de Patrocínio, seguidas de um assobio.
— Então foi um horror!
Sinal afirmativo de Patrocínio.
Estavam nessa discussão, castanholada e assobiada, quando uns rapazes, que haviam visto o jornalista entrar, invadiram o escritório, galgaram a escada e começaram aos vivas e logo um orador, diante da porta fechada, desfechou a primeira bomba:
"Prometeu, tu que roubaste o fogo sagrado da liberdade para alumiar a alma escura do cativo..."
Patrocínio caiu de joelhos, de mãos postas, como uma vítima. Montezuma vestiu o casaco, correu para a janela gesticulando desesperadamente. E o povo na rua prorrompeu em aclamações e palmas. Debalde o bom velho apertou a garganta, espichou o pescoço, explicando, com uma complicada mímica, que estava esgotado. O povo bramia, urrava, queria, a todo o transe, um discurso. Montezuma, desalentado, voltou-se para os companheiros:
— Como há de ser?
— Dize qualquer coisa.
— Como? Se não tenho voz. — Com esforço.
E o velho pôs-se a rebuscar o pince-nez no bolso, achou um apenas, acavalou-o na penca. O povo continuava a reclamar, ele fez um gesto solene, espalmando a mão — que esperassem, abriu a boca e começou a tossir. Tossiu, descansou e disse o que lhe veio à cabeça adubando a facúndia com as palavras liberdade, reabilitação, misericórdia, hegemonia. Foi um delírio e da multidão saiu uma voz aguda e vibrante. Era outro orador.
Montezuma exaltou-se, enfureceu-se e, atirando grandes braçadas, declarou colérico:
— Não! Agora é demais! Não respondo...!
O "órgão" da comissão que subira, ululava à porta e Anselmo, que fora nomeado para representar a folha, ouvia impassível. Quando o homenzinho, afogueado, suando em bicas, deu por finda a arenga, o secretário respondeu: mas querendo dizer quatro palavras, foi alongando o discurso, arrastado pelo entusiasmo.
O Neiva, vendo tamanha prolixidade, indignou-se.
— Ora, estão vendo seu Anselmo! Pois não é que o homem está esperdiçando discursos. Em vez de poupar, porque vamos ter trabalho como o diabo, está a esticar a oração, e vai longe. Vou arrancá-lo.
— Não, deixa.
— E se vier outra comissão?
— Que se arranje.
— Mas é que o povo fica mal habituado. Já o tínhamos na dose das quatro palavras e agora vem esse Demóstenes com uma enxurrada de períodos. É um desperdício!
Foram necessários meios violentos para que o Neiva se contivesse — estava possesso. Felizmente Anselmo pôs remate ao discurso. Estalaram palmas. Montezuma e Patrocínio respiraram. Mas não foi longa a tranqüilidade: os rapazes começaram a bradar: "Queriam ver o grande homem, queriam abraçar Patrocínio" e foi mister dar-lhes caminho. A onda precipitou-se, invadiu o gabinete.
Patrocínio, muito mole, ergueu-se e, passivamente, deixou-se abraçar por vinte e tantos moços robustos, que o apertavam com entusiasmo, que o levantavam, sacudiam. E o mísero, risonho, guinchando, com muita emoção: "Obrigado! Obrigado!", soltava gemidos, de quando em quando, como se lhe estivessem a afundar as costelas.
Tudo parecia ter acabado quando um dos moços arremeteu, estirando o braço e bradou:
— Patrocínio, és um novo Cristo...
— Estamos perdidos, sussurrou Montezuma.
Patrocínio tomou um ar resignado e o orador prosseguiu, comparando-o a Jesus, dizendo, porém, que a cruz que lhe estava reservada não era a do suplício, mas a da história.
O Neiva fez uma careta à comparação, mas o orador, que a percebeu, quis explicar o seu pensamento, e embrulhou-se de tal modo que os próprios companheiros, querendo salvá-lo, romperam em palmas, e, de novo, foi Patrocínio apertado, beijado, levantado, sacudido; dando-se por muito feliz quando um dos rapazes disse estrondosamente:
— Vamos à redação d'O Paiz. Joaquim Nabuco e Quintino devem estar lá. Vamos!
— Pois sim, disse baixinho Montezuma, guardando o pince-nez, vocês hão de achar o Nabuco e o Quintino. Nem todos são tolos como nós.
Quando os rapazes, com um último viva estrepitoso, deixaram o escritório, Patrocínio, derreado, gemeu:
— Não posso mais. Essa gente não vê que eu sou um pai de família...
— E eu! — esgoelou Montezuma. Só lhes digo que com outra noite como a de hoje entisico. Estou com os pulmões em estado lastimável. Apre! Também tanto não... Quarenta e seis! Nem no Paraguai!
CAPÍTULO XXVIII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.