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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Até à noite, de quando em quando reclamado pelo povo, apareceu à janela. Fez discursos, levantou vivas, foi comprimido em braços, foi beijado. Se o viam na rua rapazes avançavam, atirando-se-lhe aos botões da sobrecasaca e do colete, disputando-os como relíquias. Às dez da noite — a cidade fulgurava iluminada -, tendo de sair para jantar, pediu uma guarda.

— Venham comigo, pelo amor de Deus. Imaginem vocês que um homem teve a idéia extravagante de pedir-me um fio de cabelo para um relicário. Se pega a mania, pelam-me. Tenham paciência!

Para garantir a barba e os cabelos do herói formou-se um grupo que o conduziu ao La Paix, onde foi servido o jantar. Logo à entrada os criados do hotel, desfolhando rosas, fizeram tamanho alarido que os que comiam avançaram pressurosos e, dando com o propagandista, foi tamanha a atroada que Montezuma, receando ensurdecer, espalmou as mãos nos ouvidos, declarando que nem no Paraguai ouvira rumor como aquele.

À mesa, mal havia tempo para levar-se à boca duas garfadas — de todos os cantos surgiam oradores com taças de champanhe, e eram discursos em todas as línguas: em inglês, em alemão, em italiano, em espanhol; houve um em turco e outro em grego e uma senhora, rubicunda e anafada, exprimindo-se em francês, fez estalar nas bochechas do tribuno um beijo sonoro "au nom de la fraternité".

Explodiram urras! E como houvessem pedido uma omelette, o tostado apareceu, enorme e trêmulo, com as iniciais de Patrocínio muito espoucadas e uma rosa repolhuda espetada no meio.

Foi uma surpresa do maitre d'hótel que, por sua conta, muito generoso e comovido, mandou abrir uma garrafa de champanhe e bebeu à la liberté, muito rouco.

A retirada foi lenta e difícil. Havia gente de sentinela na escada e, quando Patrocínio, derreado e com fome, porque mal "'dera tocar nos pratos, apareceu no patamar, um rapazola esgoelou:

— Aí vem ele! E uma avalanche precipitou-se. E o mísero grande homem foi, de novo, comprimido e beijado e, por maiores que fossem os esforços empregados pelos companheiros para o arrancarem à turba, nada conseguiram. Patrocínio foi rolando na multidão como uma rolha no oceano e desapareceu. Viamse-lhe, apenas, o braços que se debatiam aflitamente. Estaria agonizando? Pedindo socorro ou aplaudindo? Mistério. O Neiva, lembrando-se da promessa que fizera, dirigiu-se aos companheiros:

— Nós não podemos ficar aqui de braços cruzados quando o nosso chefe corre tamanho risco. Se não acudimos imediatamente, levam-lhe os cabelos e a barba. O povo está com delírio epilatório. Vamos! E, corajosamente, meteram-se pela multidão.

Para caminharem da travessa do Ouvidor à Cidade do Rio foram necessários dois aflitíssimos quartos de hora. Montezuma perdeu um pince-nez e bramiu de cólera, defendendo os cinco que lhe restavam. Anselmo, asfixiado, queria usar da força e já estava disposto a fazer rolo para conseguir caminho, quando um compositor, homem de músculos, meteu os ombros e, como um Hércules, foi abrindo passagem, apesar dos protestos. Quando chegaram à Cidade do Rio a sala da redação estava apinhada de gente ansiosa, que reclamava o redator-chefe. Os rapazes pasmaram: Patrocínio não estava.

— Oh! — exclamou Montezuma. — Oh! — repetiu o Neiva.

Anselmo balbuciou:

— Hom'essa! E todos, com terror, perguntaram: "Onde andará ele?"

O retranca, que tudo vira, declarou que o povo havia levado o chefe em triunfo, rua acima.

— É necessário salvá-lo! — bradou o Neiva.

E Pardal, que surgira, segredou: "Que estava armado para o que desse e viesse."

— Mas como havemos de vencer esse mundo que enche a rua? — perguntou o velho. Estou moído, pisado, sem pernas, com um pince-nez só. Não me atrevo.

— Mas havemos de deixar sozinho o desgraçado? — Então? Eu não posso.

O Neiva, porém, atirando uma palmada ao peito, declarou com ênfase:

— Pois vou eu.... e hei de achá-lo!

Enterrou o chapéu na cabeça e ia já perto da escada, quando Anselmo declarou que o seguia, jurando com solenidade: "Para a vida e para a morte!" Pardal acompanhou-os.

— Para a vida e para a morte! — disse o Neiva; e desceram. Montezuma ficou para fazer as honras da casa.

De vez em quando surgia uma leva, subia as escadas com fragor, dando vivas a Patrocínio e, em cima, encontrava o velho. O intérprete dos sentimentos do grupo não esfriava e, avançando uma perna, esticando um braço derramava a eloqüência, entrecortada a urras pelo auditório. Montezuma ouvia com muita dignidade e, para corresponder, dizia algumas palavras atirava violentas braçadas, equilibrando o pince-nez que saracoteava. Isso começou às dez horas e até à meia noite, sem descontinuar, subiram comissões com oradores. Montezuma, de pé, com um fio de voz, roxo e hirsuto, foi respondendo, arrependido de não haver seguido com os rapazes, porque já se sentia exausto e com a língua mais seca que a de um papagaio.

Quando tornaram à redação Neiva, Anselmo e Pardal, acompanhados de Patrocínio, encontraram o bom velho estendido em uma cadeira de lona, em mangas de camisa, a abanar-se com um jornal.

(continua...)

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