Por Coelho Neto (1890)
Mas a onda, que avançava compacta, atroava os ares com uma grita estertorosa. Anselmo chegou à janela comovido. A rua estava apinhada, densa e fervilhando, e todos os olhos fitavam a tabuleta do jornal que fora o reduto da abolição. O dia, muito azul, concorria para a imponência da festa e o povo, frenético, agitava-se com um sussurro perene. As bandeiras balouçavam-se, estouravam foguetes, vivas estrugiam.
Da janela de O Paiz um redator, purpúreo e suado, arengava. Mas o povo reclamava a presença de Patrocínio e foi necessário que Anselmo, comovido, repetisse o que já havia dito Montezuma — que o chefe da propaganda não se achava presente. Mas o entusiasmo ia-se comunicando. Logo que o secretário, terminando sua explicação, levantou um viva à Pátria livre, unissonamente respondido pelo povo, da janela do hotel La Paix, um mocinho de bigode ruivo bateu as palmas e, assomado, começou um discurso retumbante, no qual, de mistura com deuses da mitologia grega, passou à figura ensangüentada de Marat, cantaram "jandaias em frondes de carnaúbas", deslizaram igaras, rebentaram grilhões. Como o orador tinha magníficos pulmões o povo, que não se preocupava com a forma e muito menos com a substância das orações, contentando-se com palavras que explodissem, rompeu em aplausos delirantes e, em seguida ao mocinho, outro começou adiante e, em pouco, em todas as janelas da rua do Ouvidor braços agitavam-se convulsivamente como se todos os moradores da apertada passagem houvessem enlouquecido.
Por fim, do meio da rua, apertados, constrangidos, agoniados, oradores começaram aos berros furibundos, fazendo a apologia do grande libertador, pedindo uma estátua, outros contestando, "que não! não havia necessidade de estátua, porque o vulto do grande homem havia de ficar no coração dos brasileiros e nas páginas da história".
Grandes e descabeladas hipérboles jorravam da boca dos tribunos, roxos de calor e de entusiasmo e o povo sempre a aplaudir com frenesi, batendo palmas. Montezuma, entusiasmado, queria, a todo o transe, fazer outro discurso; ia e vinha ao longo da sala com derramados gestos e o nariz carregado de pinces-nez, quando o Neiva irrompeu trovejando:
— Temos uma pátria! E atirou o chapéu sobre uma das mesas.
— O Neiva, vens a propósito. Vê se nos salvas.
— Que há?
— Dize da janela duas coisas ao povo, implorou Montezuma.
— Estou estafado. Venho falando desde o Largo de São Francisco até aqui. Deixem-me descansar um momento.
Da rua começaram a reclamar o Neiva, aos gritos; e o boêmio, levado aos empurrões por Montezuma, apareceu à janela sendo recebido com uma salva de palmas. O discurso que pronunciou, inspirado na religião, foi vivamente aplaudido. Ia ele perorando quando, pela travessa do Ouvidor, uma grande massa precipitou-se e Montezuma, com a sua carga de lentes, reconheceu, no meio do povo, José do Patrocínio. Então, acenando com um lenço roxo, o bom velho, em lágrimas, pôs-se a aclamá-lo.
O povo, que enchia aquela parte da rua do Ouvidor, com risco de sufocar alguns entusiastas, movendo-se aos recuanços, abriu alas ao herói.
Patrocínio vinha carregado e arquejante e, ao chegar à frente do seu jornal, aclamado por todos os seus companheiros de trabalho, inclusive os compositores que se apinhavam às janelas, não pôde conter as lágrimas.
O povo, vendo-o, prorrompeu em vivas e os populares que o carregavam, asfixiados pela multidão, reclamavam caminho, aos berros.
Um velho negro ajoelhou-se e, de mãos postas, com o pranto nos olhos, dirigiu-se ao libertador, e parecia que rezava diante de um santo.
Respeitoso silêncio permitiu que fosse ouvida a oração do infeliz:
"Nhô Patrucinu... Deus du céu bençôe suncê. Eu, pobre véio, já não se importava co cativêro. Morte tá i módi libertá corpu di negru, cançadu di trabaiá, má zêre, nhô: fio, fia, neto piquinino, esse sim, i parceru turu... rapaziada moça, esse sim, vai pruvêtá liberdade. Nossinhô tá lá in cima; ele ha di óiá suncê, nhô Patrucinu. Antonce não hai Deu nu ceu? Viva o sarvadô di nóis! Viva!" e o negro, trêmulo, foi-se arrastando para beijar os pés do redentor da sua raça.
Patrocínio, porém, arrojando-se da charola humana, chegou-se ao negro, apertou-o nos braços e, em pranto, enquanto o povo comovido parecia petrificado, entrou correndo na Cidade do Rio.
Estava exausto e, quando viu os companheiros no patamar da escada, pediu que o deixassem em paz:
— Pelo amor de Deus, meus amigos, já não tenho costelas, estou macerado. Deixem-me!
— Não, tenha paciência.
E todos quiseram abraçar o valente propagandista que gemia.
A multidão bradava por ele e o herói, bambeando nas pernas, foi à janela corresponder à manifestação que lhe faziam. As suas palavras roucas mal chegavam aos mais próximos e, de longe, os que não o ouviam, bradavam, agitavam lenços, e de um a outro extremo da rua, o seu nome estrondava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.