Por Coelho Neto (1890)
— Levante-se, tenha energia. Eu, no Rio da Prata, fiquei uma vez sem um níquel, pois, meu amigo, não descorçoei: pus-me em campo, furando a vida, e, à tarde, estava com o bolso cheio de duros e rodando em Palermo. Mova-se, vá aqui ao Alves sirgueiro e peça umas bandeiras, alugue-as, compre-as; vá depois à Rosenwald e diga-lhe, em meu nome, que venha enfeitar a sala de trabalho do José.
— Bandeiras de que país, senhor Montezuma?
— De todo o mundo: brasileiras, portuguesas, russas, africanas, chinesas, alemães, as que encontrar. Mas ande!... Mova-se!
— Vou calçar as botinas.
— Que botinas? Pois você está ao balcão sem botinas?
— Sim, senhor, por causa dos calos.
— Onde foi o Patrocínio descobrir este homem? Antes de ser gerente que diabo era você...?
— Condutor de bonde.
— Ahn! E querem que este jornal ande para diante com um condutor ao balcão! Pois sim! Vamos lá para cima.
E Montezuma avançou para a escada seguido de Anselmo, sempre a resmungar contra os compositores e contra o gerente. Diante da mesa do Patrocínio deteve-se meneando com a cabeça. De repente, resoluto, atirando o chapéu ao divã, arregaçou as mangas e, ordenando a Anselmo que fechasse a porta, pôs-se a rasgar os papéis que encontrava, pondo em ordem a mesa do herói.
— Montezuma, não rasgues os papéis. Olha que aí há coisas necessárias.
— Mais necessária é a ordem. Quer você que o povo que aí vem veja esta vergonha? Não, senhor. Que é do servente?
— Deve andar por aí.
— Pois é preciso que ele passe uma vassoura nisto. Vai chamá-lo e vê lá se esse condutor já foi ver as bandeiras e as flores. Um condutor na gerência de um jornal!
Anselmo saiu e, quando tornou com o servente estremunhado, ainda vestindo o casaco, Montezuma, de pé, admirava o trabalho que fizera e resmungava contra o gerente:
— Ao balcão, sem botinas! Falta de vergonha! Num dia como o de hoje! Então não está melhor assim?
— Parece.
— Parece não, está magnífico, tem aspecto. Vamos, homem, varra este gabinete.
— Já foi varrido.
— Como já foi varrido?!
— Sim, senhor, de manhã.
— Pois não vês que está cheio de papéis?
— Mas eu varri.
— Pois varra outra vez. E leve aquela cesta lá para dentro. Sempre atarantado, Montezuma desfez o pacote e notas rolaram sobre o canapé. Vá chamar o paginador. Que venha cá em cima. Já tinha um maço contado e amarrado. E pôsse a contar as outras notas.
— Estás rico, Montezuma?
— Rico, heim?... Foi uma campanha para arranjar dois contos de réis. Tudo fechado. Enfim... Vamos agora ver se enfeitamos isto. O gerente já foi?
— Creio que sim.
Vivas atroavam e, através do altissonante clamor do povo, distinguia-se o nome de José do Patrocínio.
— Está fresca a redação. Pois o José sabia disso e por que não mandou arranjar convenientemente o jornal? Que me falasse, que diabo! Se me houvesse dito, ontem mesmo, com dois homens, eu punha esta casa como um brinco. Mas não, é tudo para a ultima hora. Está fresca...
O paginador apareceu em mangas de camisa, radiante.
— O senhor Montezuma chamou-me?
— Sim, estão aqui as quinzenas — isto é: uma quinzena; vou ver se posso arranjar a outra para amanhã. Que esperem, eu também espero; todos esperam. E a folha?
— Está pronta.
— Pois é pô-la na rua.
— Já está rodando.
— E o gerente?
— Saiu.
— Ora graças a Deus! Que é do servente?
— Estou varrendo. O senhor não mandou varrer?
— Sim, mas depressa! Que diabo! Estás dormindo em pé!
— Eu não sou máquina.
— Bem vejo que és um pedaço de idiota, mas anda com isso.
O homenzinho resmungou e Montezuma ia dar uma ordem, quando o povo, que se havia ajuntado diante do jornal, prorrompeu em vivas. O grande velho ficou atordoado: ia e vinha com o pacote de notas, gesticulando, sem saber que fizesse, quando, da rua, começaram a bradar por alguém. Voltou-se impetuosamente para Anselmo; ia dizer-lhe alguma coisa, mas resoluto, avançou para a sacada, sendo recebido com uma prolongada salva de palmas. Pigarreou e, gesticulando desabaladamente, sempre com o pacote de notas na mão direita, disse:
— Meus senhores... Depois, voltando-se, chamou o secretário, que ria a bom rir, vendo-o naquela entalação: Toma conta deste dinheiro enquanto eu digo duas palavras ao povo.
Entregando o pacote declarou, muito rouco, atirando os braços como se nadasse:
— O Patrocínio não está e eu... em nome da Cidade do Rio, só posso dizer... Pigarreou, passou o lenço pela fronte, fez um aceno de adeus e disse naturalmente com os olhos no La Paix: Como vais, Coutinho?... Depois, lembrandose do discurso, concluiu-o: Viva a Liberdade!
O povo aclamou-o delirantemente e Montezuma, recolhendo-se, depois de agradecer, perorou vitorioso:
— Isto é assim... A gente diz duas coisas e está acabado. O povo não há de ficar aí a ver navios.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.