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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Eram longas e afanosas viagens de quase meio ano, em que a “Selma”, com o seu velame alto e amplo, ora dormitava sobre as ondas, ora corria com o vento ao capricho dos temporais de dois grandes oceanos, sem contar as arribações forçadas a pontos obscuros de ilhas e continentes.

Mesmo assim, tal era a barateza do motor, tal era a exigüidade de gastos com salários da tripulação, as viagens eram rendosas e a “Selma” deixava sempre para o seu armador em Transoë, na hiperbólica e glacial Noruega, grandes lucros que o trabalho das gentes dos países quentes lhe dava.

Gustav Kordenjold falou-me prazenteiramente e eu o convidei a partilhar dos meus “chopps”. Sentou-se e falou- me em russo. Conversamos muito sobre vários assuntos e ele veio afinal falar-me a respeito de sua viagem.

— Levamos quase oito meses. Na altura se Singapura, apanhamos um temporal de oito dias e só fomos arribar nas Filipinas. Quase não nos podíamos ter em pé; os mastaréus vieram abaixo, o leme perdeu-se e, quando o tempo amainou, foi um imenso trabalho para colocar os sobressalentes. Estou aborrecido dessa vida... Se arranjasse uns quinze mil francos, voltava para a Noruega e ia estabelecer-me com uma serraria. Tu que tens tantos conhecimentos por aqui, podias bem arranjar-me um negócio em que ganhasse essa quantia... Estou deveras aborrecido! Não posso mais!...

Não sei por que veio à lembrança o crime que os jornais noticiavam e lhe disse:

— Podia arranjar-te o dinheiro, mas o meio é um pouco arriscado...

— Como?

— Não leste nos jornais o crime que houve, ontem à noite?

Gustav teve um pequeno estremecimento, mas logo disse naturalmente:

— Não li; sabes perfeitamente que mal falo o português. Mas que tem o crime com a minha necessidade de dinheiro?

— Ouve: estou em boas relações com o chefe de Polícia daqui. Anda muito em moda as deduções com verniz científico para a descoberta dos crimes. Vou a ele; arranjo umas de modo que te acusem, os esbirros te prendem; tu negas; mas as minhas deduções acusam-te, o chefe fica contente, dá-me alguns contos de réis, eu t’os passo. Sais absolvido e vais para a Noruega. É questão de alguns meses de repouso na Detenção. Queres?

Kordenjold esteve a pensar e disse:

— Aceito. Tanto mais que esta noite não sai de bordo.

Contratamos bem a coisa e eu saí em demanda do chefe de polícia na sua respectiva repartição.

Não me foi difícil falar ao Dr. Chaveco. S. Exa. não tinha chegado e eu fiquei na antecâmara do seu gabinete. Ao entrar, ele deu de ombros comigo e veio logo falar-me:

— Oh! “Seu” barão!

Julguei que ele confundisse com outro, mas não havia tal. Os brasileiros estão sempre dispostos a ver no estrangeiro bem vestido um fidalgo; e nos pobres, um animal desprezível. Como que compreendeu o meu embaraço e aduziu:

— Não tá alembrado que viajamo junto no intomóvel?

— Sim, Exa.; mas não sou barão.

— A mode que pensei. Que há de novo?

— Venho a respeito do crime.

— Ah! O assucedido na Saúde?

— Sim, Exa.

— Que pretende fazê?

Expliquei-lhe, entrando com ele no seu gabinete, as minhas idéias. Seguiria a diligência, tomaria nota dos mais ínfimos detalhes e aplicaria o método do doutor Sherlock Holmes, de Londres.

— Vancê cunheceu ele?

— Muito.

Por esse tempo, ele se havia sentado à sua ampla mesa e delegados e mais policiais cercavam-no de todos os lados.

— “Seu” doutô Praxedes — disse a poderosa autoridade — tá aqui o dotô...Como é?

— Bogoloff — disse eu.

— Tá aqui o dotô Bogoloff que acunheceu o Cheloque em Londres. Ele vai acompanhá e vê se descobre os assassino do assucedido na Saúde.

O dr. Praxedes olhou-me com certo desdém, e quis objetar alguma coisa; mas o chefe confirmou a ordem e eu segui.

Ainda não tinham feito a primeira inspeção, de forma que pude acompanhála. A minha lábia desarmou a repugnância dos policiais profissionais e lá cheguei na melhor camaradagem com eles.

Tomando aquele ar, ao mesmo tempo de perdigueiro e de inspirado, de que fala Conan Doyle, ao tratar das pesquisas do seu herói, andei apanhando pontas de cigarro; com o auxílio de uma lente examinei o assoalho e, por fim, dei-me por satisfeito, depois de todos os trejeitos, que me vieram à cabeça. A arma de fato era esquisita; absolutamente, não a podia denominá-la e, muito menos os policiais. Fui para casa e apresentei o meu relatório, em que: tendo em vista a quantidade de potassa contidas nas cinzas dos cigarros encontrados, denunciadoras de fumo filipino; a fibra do tecido, com que fora amordaçado o agiota, de natureza perfeitamente malaia; a arma, que era um “kriss” malaio; a proporção entre as pegadas encontradas e a altura do homem; e os fios dos cabelos que encontrara — o assassino devia estado em alguma das ilhas do arquipélago malaio, ter um metro e oitenta de altura e ser europeu, pois não podia ser dessa raça oceânica, porquanto os cabelos louros denunciavam um origem européia.

(continua...)

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