Por Lima Barreto (1911)
O doutor Chaveco vinha calado ao meu lado, mas não dormia. Os seus olhos pequenos e castanhos brilhavam muito e como que sondavam a noite. De repente senti que estremecia. Não me pude conter.
— Que é doutor?
— A mode que lá em cima anda uma coisa branca.
Olhei a casa indicada e nada vi, mas Chaveco afirmara que vira e até se benzeu:
— Credo! Padre, Filho, Espírito Santo.
Acabamos a viagem conversando sobre coisas de polícia. De indústria, levei-o para esse terreno; mas aí, como em tudo mais, ele era de uma simplicidade evangélica.
— Quá retrato, Doutor! Quá, nada! Se arguém viu, o criminoso pode sê preso, mas se não viu — quá — só se outro vié contá.
Não havia meio de demovê-lo daí. Expus-lhe tudo o que sabia de métodos de investigação; mas o homem não saía da sua convicção:
— Quá! Se arguém...
Separamo-nos muito bons amigos e eu pude dormir as últimas horas da noite na minha plácida chácara dos subúrbios.
Eu morava numa eminência e a minha casa ficava sobre o “plateau”, olhando o poente. À tarde. sob alguma das muitas mangueiras, que me protegiam a casa do calor, eu gostava de ver o sol deitar-se, sumir-se por entre as nuvens de púrpura e ouro; de manhã, eu me erguia em boa hora, regava as minhas couves e lia alguns autores da minha reduzida biblioteca.
Às vezes, pelo correr do dia, eu passeava pelos arredores da minha propriedade e surpreendia a espaços aquela vida dos subúrbios da capital, feita da estratificação de todas as vidas da cidade.
A minha casa velha casa de estilo roceiro, feia a não mais poder, mas sem o casquilho antipático de suas vizinhas modernas e muito mais ampla e ensolarada que elas.
Tinha uma velha preta, que me cozinhava os pratos nacionais, a que se afizera o meu paladar russo, sem violência nem repugnância. Eu comia com prazer o feijão e a carne seca; até ousei entrar pelo vatapá e pelo caruru.
Além da cozinheira, tinha um português, que me servia ao mesmo tempo de chacareiro e de jardineiro; e, em companhia desses dois serviçais, a minha vida nos subúrbios corria mansa, sossegada e obscura.
Tendo chegado muito tarde, na noite em que voltei da manifestação a Sofônias, ergui-me do leito dia alto e, quando abri as janelas amplas e altas do meu quarto, o sol passou forte através delas, com uma fúria de protesto e indignação.
Nesse dia não reguei as minhas couves, mas, antes de almoçar, fui dar uma vista d’olhos na horta, cujo viço o meu olhar demorou-se na concentração.
Depois almocei, li os jornais e o dia enchi-o lendo e pensando em coisas graves e sérias. Não havia em mim nenhuma necessidade de movimento, mas não amanheci da mesmo forma na manhã seguinte. Despertei com os músculos a pedir exercício e com os sentidos a pedir impressões outras que não aquelas mesmas que recebia sempre no meu interior.
Logo após o almoço saí, dirigi-me à estação, comprei o necessário bilhete e o trem correu em direção à “gare” da Central.
Li no trajeto os jornais; não tinham nada de interessante, como é de uso nos nossos jornais; mas se estendiam muito sobre um crime misterioso. Como esse crime me houvesse permitido realizar uma das minhas curiosas proezas, vou narrálo em poucas palavras.
Em um dos morros da Saúde, morava um velho português que, em tempos fora agiota; segundo corria, vivia de emprestar pequenas quantias aos marítimos, mediante juros exorbitantes.
Uma manhã, custando muito a abrir a porta, a coisa causou desconfiança à vizinhança, que do fato deu conhecimento às autoridades. Arrombada a porta, ele foi encontrado amordaçado e morto a punhaladas. As notícias todas não concordavam na denominação da arma; umas, chamavam “adaga”; outras, “kandjar”; e ainda em outras a arama era chamada de cimitarra.
O instrumento do homicídio foi encontrado junto ao cadáver e outro vestígio do assassinato não havia.
Não sei por que associei a imagem simplória do chefe da Polícia com tão misterioso crime e desembarquei tendo as duas uma ao lado da outra, prestes a combinarem-se em alguma coisa nova.
A minha tenção era vagabundear pela cidade, percorrê-la ao acaso, tomando um bonde aqui, saltando ali, satisfazendo a necessidade de movimento que havia nos meus músculos e de impressões que me havia nos meus nervos.
Era pouco mais de meio dia quando saltei e, antes de me por a vagar, quis tomar alguns “chopps”.
Entrei numa casa que eu freqüentava muito ao tempo em que vivia constantemente na cidade. Ficava no centro comercial e era freqüentada por comerciantes e gente de negócios, sobretudo pelos estrangeiros.
Não tinha fartos conhecimentos no Rio e eu mesmo tinha evitado fazê-los, para melhor dar aos meus planos. Uma amizade é sempre um cúmplice da nossa consciência e os cúmplices atrapalham.
Mal tinha abancado à mesa forrada de couro, quando se me acercou um conhecido. Chamava-se Gustav Kordenjold, era irlandês e falava russo. De profissão, sabia-o ser dispenseiro de uma galera norueguesa, a “Selma”, um lindo barco de três mastros de belo e airoso ar, que se ocupava de trazer de Ragoon para o Rio o arroz excelente da Ásia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.