Por Coelho Neto (1890)
Repentinamente estrugiram brados no interior do recinto e um homem apareceu à janela afogueado gesticulando e clamando. Um pombo branco fugiu por uma das janelas, tatalando as asas, atordoado; outro, outro, outro e outro e voaram todos em direção ao parque que, com a sua verdura viçosa, resplendia ao sol.
O povo, como se visse naqueles animais inocentes um símbolo das almas que se haviam libertado ganhando, como eles, a largueza vasta das terras e dos espaços, prorrompeu em palmas e em vivas. O rumor estupendo abalou os espaços e, em vários pontos, em clangor triunfal, fanfarras atroaram.
O povo ondulava ovante e mais de vinte mil bocas, em uníssono, aclamavam; iam chapéus ao ar, lenços palpitavam e, aos arrancos impetuosos, foguetes rasgavam os ares espoucando na altura. Súbito uma detonação abalou os ecos O povo conteve, por momentos, a alacridade; outro estampido longínquo — eram os fortes e os navios saudando a Redenção da Pátria.
O entusiasmo recrudesceu chegando às raias do delírio. Mas à porta do Senado apareceu um estandarte, outros foram saindo — eram os guiões do exército benemérito e o povo recebia-os como se, efetivamente, eles voltassem gloriosos de campos cruentos de batalha. E, de tranco em tranco, asfixiado, rouco, a gesticular, chorando e rindo, vinha um homem de bronze por entre o tumulto, de braço em braço como um ídolo que todos quisessem veneradamente tocar e sentir — era Patrocínio.
E fez-se a desfilada em direção ao Paço da cidade onde a princesa regente, que descera de Petrópolis, esperava os triunfadores.
A notícia, comunicando-se aos pontos mais extremos da cidade, trouxe à rua o povo feliz e o trajeto foi lento e difícil — ia-se por entre muralhas humanas, sob uma chuva de pétalas, à luz radiosa de um dia lindo e amável.
O decreto foi assinado afluindo o povo à rua do Ouvidor, onde já aflavam bandeiras em triunfo, fazendo uma abóbada policrômica, como numa cena de lenda oriental.
O dia passou-se em delírio. Bandos percorriam as ruas, cantando. Saíram serenatas e grupos de negros com os seus maracás e os seus reco-recos e, a luz de archotes, começaram os carpinteiros a martelar construindo coretos ou fincando postes para a ornamentação.
No dia seguinte, cedo, Anselmo, que andara na véspera com o povo, apareceu na Cidade do Rio. Logo ao entrar ouviu a voz de Montezuma, que discutia acaloradamente com o paginador. O dono do althéa gesticulava frenético:
— Isso não! Pois justamente no dia da vitória é que vocês querem abandonar o homem?
— Mas, Sr. Montezuma, que posso eu fazer? O senhor compreende: os rapazes têm família e, aqui entre nós, é natural — duas quinzenas e vamos entrando na terceira.
— Ora! Duas quinzenas... A mim devem mais de cinco mil contos. Tenha paciência, vá falar aos rapazes para que façam a folha.
— Que é, Montezuma? — perguntou Anselmo.
— Greve. Não querem trabalhar porque têm na casa duas quinzenas. Se eu tivesse adiantava, mas a minha fortuna aqui está: $640 e dois gasparinhos. Logo hoje!... Mas a folha há de sair, custe o que custar. Vou ver se arranjo alguma coisa. Vai lá dentro e improvisa um discurso, trata de chamar aquela gente à ordem, eu vou por aí. Hoje há de ser difícil, mas em todo o caso... Até já. — Até já.
Montezuma saiu gesticulando, furioso; mas deteve-se à porta e, voltando-se, dirigiu-se ao gerente melancólico, que cochilava encostado à parede, com um braço esticado sobre o balcão.
— Ó homem, tu não mandas enfeitar o jornal?
— Enfeitar o jornal... com quê, senhor Montezuma? — perguntou desolado.
— Com quê?! Com bandeiras e galhardetes, homem de Deus.
— Bandeiras e galhardetes... Mas onde vou eu buscar essas coisas?
— Também vocês não têm nada, que diabo!
— Infelizmente...! — suspirou o desgraçado, recostando-se de novo à parede com resignação. Mas o paginador reapareceu radiante e dirigiu-se a Montezuma:
— Os rapazes fazem o jornal.
— Ainda bem.
— Mas é necessário que o senhor Anselmo não escreva muito.
— Não há aí encalhes? — perguntou o secretário.
— Temos um conto.
— De quem?
— Não sei; está composto há mais de um mês.
— Dê o conto. Que mais?
— Uma poesia daquele poeta de S. Gonçalo... uma que fala em Nossa Senhora fugindo para o Egito.
— Isso não. Que mais?
— Há ainda umas coisinhas. Eu vejo. Basta que o senhor escreva um artigozinho de umas três tiras; com o noticiário e os ministérios, a folha fica pronta.
— E sai?
— Já se vê.
— Então estamos arranjados. Agora vou dar umas voltas para ver se consigo as tais quinzenas.
— Uma ao menos, senhor Montezuma.
— Vou ver. E, com desabalados gestos, Montezuma partiu, falando só, com dois pince-nez escarranchados na penca.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.