Por Lima Barreto (1911)
Lucrécio deitou sobre o poderoso político um súplice e este não achou mal dar aos seus pares uma demonstração de tolerante bondade pelos humildes. Sofônias disse bonacheiramente:
— Bem! Vá lá!
— Sr. Senador Sofônias — começou Lucrécio. — Neste momento solene...
E parou como se buscasse palavras, termos, imagens. Esteve um instante calado, com a boca fortemente fechada: houve um imperceptível movimento nos músculos na sua garganta de quem engole alguma coisa. Por esse tempo, começaram a vir da sala convivas, damas e cavalheiros, curiosos de travarem conhecimento com a eloqüência de Lucrécio.
Ao ver tanta gente à sua roda, animou-se e continuou:
— Sr. Senador...
Mas não pode acabar. Veio-lhe um forte vômito e, antes que pudesse correr à janela, despejou-o ali mesmo, borrifando o peitilho do famoso senador e a barra das saias daquelas grandes damas. Lançou, lançou tudo o que tinha no estômago.
Eu estava na sala desde que Lucrécio começara a beber e de lá não arredei pé. O triste final do discurso do “capanga” causou em algumas pessoas indignação e noutras hilaridade. Entre aquelas, houve um que não disfarçou sua reprovação. Dizia ele:
— Tá bebo... Chama aí um poliça... Mete ele no xadrex.
Olhei o homem que me pareceu um tipo acabado de matuto. Tinha um ar de tabajara e umas roupas amarrotadas no corpo. Perguntei a Numa quem era.
— É o Dr. Chaveco, chefe de Polícia.
Reparei ainda o homem. Que triste chefe de Polícia! Tinha um ar de vítima de conto do vigário.
Houve um grande esforço por parte dos presentes para que ele não levasse preso Lucrécio e foi preciso a intervenção pessoal de Sofônias para dissuadi-lo completamente. Convenceu-se, apanhou o chapéu, tomou sua bengala, sem castão nem ponteira, despediu-se:
— Tá bão.... Inté manhã!
Aquele ar bonachão do homem, aquele seu aspecto paternal e simplório, tão em contraste com as suas terríveis funções longe de provocarem a mofa, que eu via estampada em todos os rostos, fizeram-me encarar com ternura o país, em que estava, cuja capital tinha a sua segurança entregue a mão tão débeis e, a julgar pelo aspecto, tão doces.
Recordei-me, não sem calafrios, da famosa 3ª Seção da Chancelaria Imperial da minha pátria, aquela terrível polícia secreta, que seguia um a um os habitantes do Império com seus processos inquisitoriais; lembrei-me também das suas terríveis prisões, das minas da Sibéria, dos cossacos...
O Brasil surgiu-me, então, como um país maravilhoso, liberal por fraqueza, mas liberal; e eu perdoei um instante tudo o que presenciara nele de ridículo e inferior.
As minhas reflexões foram interrompidas por uma nova entrada do chefe de Polícia. Na sala de visitas já se dançava, eu estava na sala de jantar, a um canto fumando e quase na minha frente, na outra extremidade, algumas senhoras cercavam a esposa de Sofônias. O Dr. Chaveco foi entrando, batendo com a bengala no assoalho, ao jeito de um pastor bíblico:
— D. Lalá — disse ele — mi esqueceu uma coisa...
— Que é, Doutor?
— A mode que não levei uns rebuçados pros meninos.
— Pois não, Doutor.
— Tem artéa, siá Dona? O Zeca tá cum tosse.
— Não, Doutor. Quer de hortelã? — Serve, Dona.
A senhora começou a preparar o pequeno embrulho e eu não sei por que quis travar relações com o Dr. Chaveco. Cheguei-me a ele e fui logo dizendo:
— Então Doutor, já vai?
— Já moço; Drumo sempre c’os pintos. É mais bom pra saúde.
— Mas, no seu cargo, nem sempre pode...
— Quá, moço! Tenho os auxiliá que faz minha vez.
A dona da casa voltou com o embrulho; Chaveco agradeceu, levantou-se, despediu-se e disse-me:
— Qué i cô nós, moço? Não paga nada. Intomove tá na porta.
Embora as minhas finanças estivessem em bom pé, lobriguei logo naquela relação com o chefe de Polícia um meio de ganhar dinheiro mais tarde. Na rua, entre outros, o seu automóvel esperava. Sem esperar que o ajudante abrisse a portinhola, Chaveco a foi abrindo e convidou-me:
— Trepe moço!
Entrei no veículo e logo que o chefe de Polícia se pôs ao meu lado, o motorista lhe perguntou para onde queria ir.
— Pra onde vosmecê qué i, ?
Disse-lhe e o automóvel rodou pela rua deserta, cujas palmeiras, de um ou outro lado, dormiam sob o lençol de um belo luar.
Estivemos um pouco calados e, após, ele me perguntou:
— Como é seu nome, moço?
Disse-lhe eu então o meu nome por inteiro.
— Ué! gentes! — fez ele um risinho simiesco — Que nome! é de santo?
Expliquei-lhe então que era russo e o meu nome era, portanto, russo. Ficou muito espantado e afirmou-se naquele seu falar especial, que eu falava muito bem o português.
Afogada no luar, a cidade oferecia um aspecto de paz serena e tranqüilidade satisfeita. Pelas ruas, não havia ninguém e aquelas casas inteiramente fechadas, mudas, tranqüilas, enchiam-nos de uma satisfação suave. Era como se esquecêssemos que, dentro elas, havia muita angústia, muita tormenta, muita paixão e muito ódio. Verificando isso, tínhamos vontade de que todos nós, toda a humanidade, viesse a dormir assim, pelo séculos em fora...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.