Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Eu não temo a morte, disse Anselmo, o que me apavora é a idéia de morrer, é a certeza em que estou de que hei de acabar. O que me aterra é a sensação angustiosa do momento. Não penso na morte, penso na vida. Queres ver a coisa? Está claramente exposta em um sonho que me persegue. Vejo-me no fundo de um poço tenebroso, frio, lutando, debatendo-me, sem ar até que encontro a ponta de um cabo — agarro-o aflito e começo a guindar-me, mas, com o atrito das mãos, o cabo começa a esgaçar-se, a delir-se... Chegam-me aos ouvidos vozes, avisto a luz do sol, fraca e longínqua, sinto o perfume das flores. Já à borda do poço, vejo que o cabo está por um fio tenuíssimo — mais uma flexão e tudo estará perdido.. E ouço e sinto a vida... Ah! O instante horrível deve ser esse: a espera, sentir o estalar dás últimas fibras do cabo, estar à beira da luz e dentro da treva. À queda é uma vertigem, mas antes da queda, o momento da resistência da fibra mais forte...

Tenho passado muitas e muitas noites em claro a pensar nesse drama sinistro. A saudade da vida é que me assombra: o acabamento deve ser rápido, muito rápido.

— Não concordo contigo, disse o Neiva, não concordo.

— Como não concordas?

— Não... Medo da morte não tenho, porque sou católico — o Além não me aterra, o que me tortura é a idéia da destruição vagarosa, gradativa. Explico-me. Para mim a morte é como a lenta extinção de uma fogueira; desaparecem as labaredas, mas ficam as brasas, faíscas percorrem os troncos carbonizados, apagadas as faíscas fica a cinza quente, ainda é vida. A morte parcial... o aniquilamento das células... hum! Imagina um pobre corpo imóvel a extinguir-se: aqui um fato que se apaga no braseiro da memória, ali outro, mas crepitando ainda uma saudade e terrível, como uma formiguinha presa num recipiente hermeticamente fechado, a correr aflita de um lado para outro, a última idéia no corpo morto, a idéia ambiciosa de viver, descendo pelos nervos, do cérebro à sola do pé, subindo ao coração, indo ao fígado, aos pulmões, ao baço, aos rins, aos intestinos e achando em tudo o frio e o silêncio. A ânsia de fugir... Ah! Meu amigo, dessa sobrevivente é que eu tenho medo! Até que ela acabe, até que sucumba no grande frio mudo... Ah!...

— Pois é isso justamente o fio tênue do cabo, disse Anselmo: é o "instinto"

que luta até...

— ... não poder mais! — exclamou o boêmio, com um arrancado e desesperado suspiro. E atirando os braços bradou: — Com todos os diabos, mudemos de assunto. Falemos da vida, das coisas da vida, do esplendor da vida. E o carro chegou ao Largo da Carioca justamente quando os sinos dobravam as Ave Marias!

CAPÍTULO XXVII

Foi com a violência inesperada de uma erupção vulcânica que irrompeu na Câmara o projeto de lei extinguindo a escravidão. Discutido com a urgência fogosa dos propagandistas, que o reputavam uma "necessidade nacional", venceu impetuosamente a primeira represa, subindo ao Senado onde foi acolhido com simpatia quase unânime.

Os mais ferrenhos oposicionistas, que haviam procurado travar a propaganda, sentiram-se mesquinhos diante da massa avassaladora que se impunha ameaçando, com energia, o próprio trono. O projeto da Câmara tinha, a bem dizer, a feição ostensiva de um ultimatum e os senadores mantiveram a toga suspensa.

Cândido de Oliveira, requerendo que a 3ª discussão e subseqüente votação fossem excepcionalmente feitas no domingo, 13 de Maio, precipitou o desfecho. A certeza da vitória pôs o povo em alvoroço. Os representantes da imprensa reuniramse no Club de Esgrima para discutir o programa dos festejos comemorativos, todas as associações convocaram os seus membros, e, no dia do pronunciamento do Senado, a cidade amanheceu festiva. Às janelas de algumas casas tremulavam bandeiras. O povo afluía às imediações do Senado ocupando as ruas adjacentes, enchendo o parque, como um exército sitiante. O sol dardejava rijo sobre a multidão; as copas dos chapéus de sol moviam-se como carapaças que flutuassem, lenços agitavam-se. As janelas do Senado estavam entupidas e foi necessário que a tropa interviesse para vedar a entrada no recinto.

Esperava-se com a alegria da certeza e, com o correr das horas, mais engrossava a multidão. Havia gente nas moitas, nas grades do parque, pelos telhados, acolhida à sombra de chapéus de sol; muito longe mesmo, nos telhados das casas, moviam-se vultos. Homens agarravam-se aos lampiões, outros subiam pelos postes telefônicos. Era a cidade ansiosa que alongava os olhos para o templo de onde devia ser lançado o misericordioso perdão sobre os cativos de África.

Os bondes, parados em longa fila, traziam curiosos sobre a tolda; carros detinham-se intimados pelo povo. Os próprios soldados refreavam os animais na impossibilidade de vencer a massa compacta.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...99100101102103...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →