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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Nem um frêmito: extinguiu-se preso na paralisia. Alguns soluços quando correu a notícia; vozes abafadas, passos leves, segredos. Vieram os círios que põem quatro lágrimas de fogo junto aos mortos, veio a água benta com um ramo de alecrim num vaso de cristal.

Um Cristo de bronze, secular, gasto de muitos beijos, foi pousado à cabeceira do poeta. Neiva e Anselmo guardaram o corpo do companheiro, vestiramno chorando. Os de casa pareciam desafogados, choravam por obrigação: deixavam a gota crescer nos olhos até que se precipitava pelas faces, punham-na, então, em evidência para que vissem que sabiam ser delicados, que conheciam as regras convencionais do sentimento, como depois provaram indo à missa e vestindo o luto.

Eram oito horas da noite quando o Neiva, atarantado, chamou Anselmo ao vão de uma janela para falar-lhe em segredo, porque os parentes do poeta suspiravam no quarto, esfregando os olhos secos.

— Não saias daqui; eu vou aos teatros. À meia-noite virei render-te.

Anselmo recuou assombrado:

— Pois vais aos teatros hoje!?

— Então, homem? Que queres? Vou arranjar algum dinheiro para comprar duas ou três coroas: uma por mim, outra por ti e outra pela imbecilidade humana. Que os idiotas prestem, ao menos, este culto a um poeta que teria sido genial se nascesse em outra terra. Até já.

Tomou o chapéu e, em pontas de pés, deixou a câmara fúnebre. A casa encheu-se, porque toda a vizinhança quis ver "o moço". As velhas chegavam ao leito de mãos cruzadas, um ar muito compadecido, a cabeça inclinada; ficavam um instante a mirar o cadáver, aspergindo-o com água benta e voltavam para o grupo, onde se discutia política e a vida livre de certa vizinha. Anselmo sentia-se mal naquele meio e, como ninguém lhe dirigia a palavra, procurava afazeres, ora espevitando os círios que crepitavam, ora arranjando a roupa com que haviam vestido o poeta, tão ancha, amarfanhada em gelhas no corpo raquítico, roupa de esmola, talvez de um tio, gordo e baixo que ia e vinha pelo corredor escarrando forte. A noite ia alta: os que faziam quarto ao morto conversavam francamente, com exceção do velho gordo que roncava numa cadeira de vime, de pernas abertas, a cabeça caída, as mãos papudas enclavinhadas no ventre rotundo, quando o Neiva entrou, de leve, com um embrulhinho e, depois de haver contemplado o cadáver, chamou Anselmo à parte sussurrando-lhe:

— Tens aqui uma porção. Come porque esta gente nem uma xícara de café é capaz de oferecer.

Anselmo, retirando-se, foi devorar deixando o boêmio à cabeceira do Lins, muito comovido, a enxugar lágrimas teimosas. Inesperadamente houve um tinir de louça e uma negrinha entrou na câmara mortuária com uma bandeja oferecendo café. O Neiva sussurrou a Anselmo:

— Teriam eles ouvido a minha observação?

— Talvez.

— Melhor. Que diabo! Não podemos passar toda a noite a fazer cruzes na boca. Nem parecem nortistas. No Norte oferecem-se ceias lautas aos que fazem quarto. E aqui mesmo, já apanhei uma indigestão em casa de uns minas no dia da morte de um deles. Foi um banquete, meu amigo! Um verdadeiro banquete! E aqui...

nem um biscoito.

— Arranjaste para as coroas?

— Se arranjei! E já encomendei flores, flores em profusão; devem trazê-las aqui. Descansa: o nosso Lins não fará figura triste, isso não. Eu estou aqui!

O sono não conseguiu vencer os rapazes que viram nascer a luz coando-se pelos vidros baços da janela. O Neiva, então, sentindo-se mole, convidou Anselmo para o Ravot:

— Vamos tomar a nossa ducha para resistirmos. Estou esbarrondado. Há seis noites que não durmo.

— E eu! — exclamou Anselmo apanhando o chapéu e, sem se despedirem, foram saindo cautelosamente, deixando o morto desacompanhado, porque só uma criança estava junto dele e dormia profundamente, estirada no chão, com um braço passado pela cabeça.

Eram quatro horas da tarde, linda tarde de Setembro quando o corpo do poeta foi conduzido ao coche pelos boêmios. As coroas levadas pelo Neiva faziam desaparecer a da família do morto, feita de saudades roxas, mas tão fanadas, que o Duarte, indignado, murmurou:

— Isto até parece de aluguel.

O saimento não foi numeroso: quatro carros apenas acompanharam a S. João Batista o eterno enamorado. À beira da cova o Neiva, rompendo em soluços, despediu-se do amigo e o Duarte, com um pranto sincero, pediu ao finado que o viesse buscar, porque já estava enfarado da vida imbecil. Um velhinho abeirou-se da cova, pigarreou como se preparasse a garganta, os coveiros encostaram-se às pás, esperando o discurso, mas o velhinho meneou com a cabeça e retirou-se. A sineta tinia.

— Vamos, meus amigos; convidou o Neiva. Houve um rufo sinistro que se foi tornando soturno e abafado e a terra tomou posse do corpo amado. No carro Anselmo e o Neiva travaram uma discussão transcendente:

(continua...)

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