Por Padre Antônio Vieira (1655)
75. Então que vos diga o demônio com a boca muito cheia e muito inchada: Haec omnia tibi dabo! Mente o diabo, e troque as balanças: o omnia não há de estar na balança do mundo, senão na balança da alma. O tudo deste mundo e do outro é a alma, não é o mundo. No capítulo doze de São João diz Cristo: Et ego, cum exaltatus fuero aterra, omnia traham adme ipsum (Jo. 12,32): E eu, quando for levantado na cruz, hei de trazer a mim tudo: Omnia. Digam-me agora os doutos, que tudo é este que Cristo havia de trazer a si? Cristo desde o instante da Encarnação, foi Senhor universal de tudo pela união hipostática, pelo direito hereditário da filiação, como Filho natural de Deus, e por outros muitos títulos. S. Paulo: Quem constituit haeredem universorum;15 S. João: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus;16 e o mesmo Cristo: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo.17 Pois se Cristo era, e sempre foi Senhor de tudo, que tudo era este que diz que há de adquirir e trazer a si na cruz? Era o tudo que só é tudo: as almas. Assim a resolve S. Crisóstomo, S. Cirilo, Teofilato, Beda, Leôncio, e todos. Desde o instante da Encarnação foi Cristo absoluto Senhor de todas as criaturas, quanto ao domínio e quanto à sujeição; só das almas, ainda que era Senhor quanto ao domínio, quanto à sujeição não o era, porque estavam cativas e escravas do demônio e do pecado. E como Cristo na cruz havia de redimir, adquirir, sujeitar e trazer a si as almas, este é o tudo a que absolutamente chama tudo: Omnia traham ad me ipsum.
76. E se me perguntardes porque na cruz não trouxe a si atualmente mais que uma só alma, a da bom ladrão, foi porque entendêssemos que o tudo de que falava, não eram só todas as almas coletivamente, senão qualquer e cada uma delas. Assim o declarou admiravelmente a versão siríaca: Unum quem que traham ad me ipsum.18 Todas, tudo; cada uma, tudo. A vossa alma é tudo, a minha tudo, a de Dimas e a de qualquer homem, tudo: omnia, unum quem que. Mas para que são versões nem exposições, se temos o mesmo autor da texto? Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerenti bonas margaritas; inventa una pretiosa margarita, dedit omnia sua, et comparavit eam (Mt. 13,45 s). Um mercador – diz Cristo – que negociava e tratava em pérolas; achando uma, deu tudo quanto tinha, e comprou-a. – Quem é o mercador, qual é a pérola, e que é o tudo que deu por ela? O mercador – diz Haymo – é Cristo; a pedra preciosa é a alma; o tudo que deu por ela é tudo o que Deus tinha e tudo o que era. De maneira que não por todas, nem por muitas, senão por uma só alma: Una pretiosa margarita, deu Deus tudo o que tinha e tudo o que era, e não uma só vez, nem por um só modo, senão por tantos: Se nascens dedit socium, convescens in edulium, se moriens in pretium, se regnans dat in praemium: Deuse na Encarnação, deu-se no Sacramento, deu-se na cruz, dá-se na glória. E aquilo porque Deus tantas vezes, e por tantos modos, deu tudo, vede se é tudo: Omnia traham ad me ipsum. – A alma, a alma, tentador, é o verdadeiro tudo, e não o mundo, a que tu falsamente dás esse nome: Haec omnia tibi dabo.
77. Que bem o entendeu assim o mesmo demônio, que para tudo nos dá armas. Terceira vez vencido o tentador, diz São Lucas que se retirou por então, não para desistir totalmente de tentar a Cristo, mas reservando a tentação para outro tempo: Et consummata omni tentatione, diabolus recessit ab illo usque ad tempus (Lc. 4,13). Contudo, nem S. Lucas, nem algum dos outros evangelistas dizem expressamente quando o diabo tornasse a tentar a Cristo. Que tempo foi logo este, e que tentação? Santa Atanásio, e comumente os Padres e expositores, resolvem que o tempo foi no último dia e hora da morte de Cristo – que é a ocasião em que o demônio faz o última esforça para tentar aos homens – e que a tentação foi por boca dos judeus, quando disseram: Si Filius Dei est, descendat nunc de cruce, et credimus ei (Mt. 27,42): Se é Filho de Deus, desça da cruz, e crereinos nele. – E verdadeiramente a frase, e modo da tentação, bem mostra ser do mesmo artífice que tinha tentado a Cristo no deserto e no Templo, onde sempre começou, dizendo: Si Filius Dei es. Vede agora a astúcia e conseqüência do demônio, em que fundou toda sua esperança. Como na última tentação, em que se retirou vencida, tinha oferecido a Cristo todos os reinos do mundo, fez este discurso: Este homem, ofereci-lhe todo o mundo, e não o pude render: necessário é logo acrescentar e reforçar a tentação, e oferecer-lhe coisa que pese e valha mais que todo o mundo. Coisa de maior preço e de maior valor que todo o mundo não há, senão a alma. Hei-o de tentar com almas. E assim o fez: Descendat de cruce, et credimus ei. De sorte que só com o oferecimento daquelas almas, que o demônio tanto possuía, lhe pareceu que podia render a quem não tinha rendida com o oferecimento de todo o mundo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.