Por Padre Antônio Vieira (1674)
24. Comparai-me agora rio com rio, e mar com mar. Assim como a Arca do Testamento passou por aquela parte onde as águas do Jordão se misturam com as do Mar Morto, assim passou Isabel por aquela parte onde as águas do Tejo se confundem com as do Oceano. O Oceano é aquele pego vastíssimo e imenso, que ele só é todo o elemento da água, e, estendendo infinitos braços, está recebendo como nas pontas dos dedos o tributo de todos os rios do universo. Este foi o mar que se retirou e fez pé atrás à vista de Isabel. E o rio, qual era? Aquele soberbíssimo Tejo, primeiro domador do mesmo Oceano, a quem pagaram páreas em pérolas o Indo e o Ganges, não coroados de juncos e espadanas, como o Padre Tibre, mas com grinaldas de rubis e capelas de diamantes. Este soberbo mar, este soberbo rio são os que fizeram praça a Isabel, e lhe descobriram nova terra para que pisasse. Davi, respondendo à sua pergunta, disse: Afacie Domini mota est terra, afacie Dei Jacob.27 E aqui está o maior excesso de maravilha. Lá o Jordão parado, cá o Tejo parado; lá a Arca coroada, cá Isabel coroada; lá a Arca caminhando a pé enxuto, cá Isabel a pé enxuto; mas lá, porque o rio viu a face de Deus: cá, porque viu a face de Isabel; lá, porque viu a face do Senhor de Israel; cá porque viu a face da Rainha de Portugal: Afacie Domini, afacie Dei Jacob. Que Deus visto refreie a corrente dos rios, isso é ser Deus; mas que, à presença de Isabel, lhe façam os rios a mesma reverência, vede se é ser rainha mais que rainha? E se não, perguntai ao mesmo Tejo, quantas vezes passaram por ele as outras rainhas, quais eram as suas cortesias. Passavam as Teresas, passavam as Dulces, passavam as Mafaldas, passavam as Urracas, as Leonoras, as Luísas, as Catarinas, e o Tejo, que fazia? Corria como dantes. Porém a Isabel – falemos em frase de Roma – a Isabel firmava-se o Tejo, às outras não se firmava, porque as outras eram rainhas, Isabel era rainha e santa, e por isso maior rainha.
§VI
O milagre das rosas e a conversão de uma substância em outra, poder divino, reconhecido pelo demônio na tentação do monte, e provado por Cristo na instituição do Sacramento. Os arremedos dos reis. O mais a que pode chegar um rei é pôr nomes, como Adão aos animais. O corpo incorrupto da santa, e o corpo incorrupto de Cristo.
25. Eu já quisera acabar, mas está-me chamando a nova primavera que vemos, a que repare naquelas rosas. Levava Isabel na aba do vestido grande cópia de moedas de ouro e prata, para repartir aos pobres, e era inverno. Perguntou-lhe el-rei que levava, e respondeu que rosas. – Rosas neste tempo, como pode ser? – diz elrei. Abriu a santa, e eram rosas. Há rainha, há rei no mundo que tenha tais poderes? Gastar muito dinheiro, e grandes tesouros em flores, em jardins, e ainda em sombras, que é menos, isto podem fazer, e fazem os reis; mas fazer de um dobrão uma rosa, converter uma substância em outra, ainda que seja um grão de ouro em um grão de areia, nem todos os reis do mundo juntos o podem fazer; é outra jurisdição mais alta. Manda Deus a Moisés sobre o Egito, e o título que lhe deu foi de Deus de Faraó: Constitui te Deum Pharaonis.28 Parece demasiado título, e não necessário. Faraó era rei de Egito: seja Moisés rei de Faraó, e basta. Pois por que lhe não dá Deus título de rei, senão de Deus? Porque era razão que o título se conformasse com os poderes. Moisés havia de converter a vara em serpente, o Nilo em sangue, a água em rãs, o pó em mosquitos, e converter umas substâncias em outras, é poder e jurisdição mais alta que a dos reis. Chama-se logo Moisés, não rei de Faraó, senão Deus. Esta foi a discrição do demônio no formulário das suas tentações. Quando disse a Cristo que convertesse as pedras em pão, acrescentou: Si Filius Dei es;29 quando lhe ofereceu todos os reinos do mundo, não falou em ser Filho de Deus. Pois se lhe chama Filho de Deus quando lhe diz que converta as pedras em pão, por que lhe não chama também Filho de Deus quando lhe oferece os reinos de todo o mundo? Porque o domínio de um reino, e de muitos reinos, e de todos os reinos, cabe na jurisdição de um homem rei; mas converter uma substância em outra é poder mais que humano, é poder mais que real, é poder divino. Tais foram neste caso os poderes daquela rainha, sobre todos os reis e rainhas do mundo. Mas ainda não está ponderado o fino da maravilha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.