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#Sermões#Retórica

Sermão da Bula da S. Cruzada

Por Padre Antônio Vieira (1647)

Oh! misericórdia do lado de Cristo! Oh! tesouros da Madre Igreja, que dele se enriqueceu! Ele tão infinito em lhos entregar, e ela tão liberal em no-los repartir! Agora entendereis a cláusula desta visão do Apocalipse. Diz S. João que quando o cordeiro abriu os sete selos daquela misteriosa escritura, prostrados diante do seu trono, lhe deram infinitas graças todos os que estavam no céu, e na terra, e debaixo da terra, e no mar, e debaixo do mar: Et omnem creaturam, quae in coelo est, et super terram, et quae in eo, omnes audivi dicentes sedenti in throno, et Agno: Benedictio, et honor, et gloria. E quem são estes que davam tantas graças a Deus e ao cordeiro que abriu os sete selos, não só no céu, senão na terra e no mar, senão também debaixo da terra e debaixo do mar? São todos aqueles que por diversos modos gozam os benefícios da bula. Os do céu, são os bem-aventurados; os da terra e do mar, são os vivos; os de debaixo da terra, e debaixo do mar, são os defuntos. E todos davam graças a Deus e a Cristo morto pela abertura dos sete selos da Santa Cruzada, porque bem-aventurados, vivos, e defuntos, todos por diverso modo lhe devem o maior benefício. Os bem-aventurados, porque por meio da bula subiram direitos à glória. Os vivos, porque por meio da bula se restituem à graça. Os defuntos e do purgatório, porque por meio da bula se livram das penas. Vede atém onde alcançam, e se são grandes e universais para todos as graças daquele l ***********************rcês e graças, não basta só estarem impetradas e concedidas, nem basta terdes em vosso poder as portarias, os alvarás e as provisões para que entre o dado e o efetivo, entre a escritura e a posse, entre o papel e o que ele diz, não se atravessem muitos embaraços e muito tempo de esperas e ainda de desesperações, com muita razão me perguntareis: Estas graças e indulgências tão grandes que se nos concedem nas bula, quando se alcançam? Já pagamos a esmola, já se escreveu o nosso nome na bula, já temos em nosso poder, mas o efeito, ou o efetivo, quando há de ser? A palavra que se segue o diz: Et continuo: Logo sem dilação, logo sem tardança, logo verdadeiramente logo. E digo verdadeiramente por que não cuide ou receie alguém que o logo da Santa Cruzada é como os logos dos vossos tribunais.

Não há palavra mais equivoca, nem advérbio de mais duvidosa significação, que o logo em matéria de despachos. Apenas há remissão que não desça comum logo, e quase não há consulta que não suba dois logos, e alguma com três. Mas estes logos quão são longos são, quando tardam, e quando duram! Há logo de dois anos e de quatro, e de dez, e de toda a vida. Estais despachado para a Índia, sobem vossos papéis com três logos, dispara a capitânea peça de leva, cortam-se as amarras, embarcai-vos, e que vos sucede? Estivestes parado muitos dias nas calmas Guiné, destes volta ao Cabo de Boa Esperança, invernastes em Moçambique, passastes duas vezes a linha, chegais finalmente a Goa a cabo de um ano e meio, e os logos ainda não chegaram. Se lá morrestes, chegarão para o dia do juízo, e se tornastes daí a oito ou dez anos, ainda os logos estão lá em cima, ou não há já memória donde estejam. E isto é o que significavam aqueles logos. Muitas vezes me pus a considerar que quer dizer logo. Logo? Porque se o primeiro logo significa logo, o segundo, que significação tem? Parece que um logo sobre outro logo, é como um não sobre outro não. Um não sobre outro não quer dizer sim; e um logo sobre outro logo, muitas vezes quer dizer nunca, e quase sempre, tarde. Isto porém se entende quando os logos são para remunerar e premiar beneméritos, que quando são para os destruir e aniquilar, um logo, e dois, e três, todos voam. Vede-o na tragédia do grande precursor de Cristo. Fez el-rei Herodes aquele solene convite ao dia dos seus anos; saiu a dançar a filha de Herodias; disse-lhe o rei que pedisse ainda que fosse a metade do seu reino. E que pediu? A cabeça do Batista, com três logos. Cunque introisset statim cum fesatinatione ad regem, petivit dicens: volo ut protinus des mihi in disco caput Joannis Baptistae.16 Contai os logos, e vede se foram três. Statim, logo; cum festinatione, logo; protinus, logo. E foram os logos tão prontos e tão logos, que logo entre os pratos da mesa apareceu em um deles a cabeça do maior dos nascidos. Estes são os logos da justiça, ou tirania do mundo. Quatro significações, todas formidáveis! Para o bem, um nunca; para o mal, três logos: Statim, cum festinatione, protinus.

(continua...)

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