Por Padre Antônio Vieira (1652)
Mas que direi eu neste passo tirando os olhos dos ministros da Sinagoga, e pondo-os em muitos que se chamam cristãos? Já me não queixa dos escribas e fariseus, nem Cristo se podia queixar tanto, porque haviam de vir ao mundo tais homens, que com sua pertinácia os haviam de fazer menos duros, e com as suas tentações menos tentadores. Os escribas e fariseus não se renderam às primeiras escrituras do dedo de Cristo, mas renderam-se às segundas, e largaram as pedras. Os hereges com nome de cristãos, nem às primeiras, nem às segundas escrituras se rendem, antes, das mesmas Escrituras adulteradas (que também trazem consigo a adúltera) fazem pedras com que atirar a Cristo. Santo Agostinho e Santo Ambrósio dizem que escreveu Cristo duas vezes para mostrar que ele era o autor e legislador de ambas as Escrituras: das Escrituras do Velho Testamento e das Escrituras do novo, e que as primeiras Escrituras foram escritas em pedra, porque haviam de ser estéreis; as segundas escritas na terra, porque haviam de ser fecundas, e haviam de dar fruto, como alfim deram hoje.30 Mas estou vendo, Senhor meu, que esta terra em que escreveis e escrevestes, arada duas vezes pela vossa mão, e semeada duas vezes com a vossa palavra, em lugar de dar fruto, há de produzir espinhos. Esta foi a maldição que lançastes a Adão, que não só se cumpriu e estendeu, mas cresceu, e crescerá sempre em seus filhos. Os escribas e fariseus foram piores que o demônio. Virão homens que sejam piores que os escribas e fariseus. O diabo rendeu-se a uma Escritura: os escribas e fariseus renderam-se a duas; virão homens que nem a duas Escrituras se rendam, e, pertinazes contra ambos os Testamentos, com ambos vos façam guerra. Dai-me licença para que vos repita a minha dor porte do que está antevendo vossa Sabedoria.
Escrevestes em ambos os Testamentos a verdade e fé de vossa divindade, tão expressa no Testamento Novo, e tão convencida por vós mesmo no Velho; e virá um Ébion, um Cerinto, um Paulo Samosateno, um Fotino, que impudentemente neguem que fostes e sois Deus. Escrevestes em ambos os Testamentos (e não era necessário que se escrevesse) a verdade de vossa humanidade, em tudo semelhante à nossa, e virá um Maniqueu, um Prisciliano, um Valentino, que contra a evidência dos olhos e das mesmas mãos que a tocaram, digam que vossa carne não foi verdadeira, senão fantástica, celeste e não humana. Escrevestes em ambos os Testamentos a unidade de vossa pessoa, uma em duas naturezas, humana e divina, e virá um Nestório, que reconhecendo as duas naturezas, diga pertinazmente que também houve em vós duas pessoas, e um Eutiques, e um Dioscoro, que confessando a vossa humanidade e a vossa divindade, digam que de ambas se formou ou transformou uma só, convertendo-se uma na outra. Escrevestes em ambos os Testamentos a perfeição e inteireza de vosso ser humano, composto de corpo e alma, e virá um Ario e um Apolinar, que digam que tivestes somente corpo de homem, e que a alma desse corpo era a divindade. Escrevestes em ambos os Testamentos, e demonstrastes contra os saduceus, a fortuna ressurreição nossa e de todos os mortais, e virá um Simão Mago, um Basilides, um Hemineu, um Fileto, que merecedores de morrer para sempre, como os brutos, neguem a esperança e a fé da ressurreição. Escrevestes em ambos os Testamentos (bastando só a experiência) a verdade e absoluto domínio do livre alvedrio humano, e virá um Bardasanes, um Pedro Abailardo, e modernamente um Eculampádio e um Maleththon, que dizendo uma liberdade tão inaudita, neguem que há liberdade. Escrevestes em ambos os Testamentos, que sem graça não há mérito, e que do concurso de vossa graça e do nosso alvedrio procedem as obras dignas, e só elas dignas, da vida eterna, e virá um Pelágio, um Celestino, um Juliano, que impotentemente concedam todo este poder ao alvedrio, acrescentando as forças do primeiro benefício, com que nos criastes, para vos negarem ingratissimamente o maior e segundo, com que nos justificais. Escrevestes em ambos os Testamentos a necessidade e merecimento das boas obras, e virá um Lutero, que não só negue serem necessárias as boas obras para a salvação, mas se atreva a dizer que todas as boas obras são pecado, e pudera acrescentar, pecado em que nunca pecou Lutero. Assim o ensinaram ele e Calvino, aqueles dois monstros mais que infernais do nosso século, para tirar do mundo a oração, o jejum, a esmola, a castidade, a penitência, os sufrágios, os sacramentos, pregando contra o que Cristo pregou, e escrevendo contra o que duas vezes escreveu, e formando novas tentações, contra o mesmo Cristo, das mesmas Escrituras com que ele se defendeu das tentações, para que se veja quanto se adiantaram os homens nas artes de tentar, e quanto atrás deixaram ao mesmo demônio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.