Por Padre Antônio Vieira (1669)
Os mais cegos homens que houve no mundo foram os primeiros homens. Disse-lhes Deus, não por terceira pessoa, senão por si mesmo, e não por enigmas ou metáforas, senão por palavras expressas, que aquela fruta da árvore, que lhes proibia, era venenosa, e que no mesmo dia em que a comessem haviam de perder a imortalidade em que foram criados, não só para si, senão para todos seus filhos e descendentes; e contudo comeram. Há homem tão cego que coma o veneno conhecido como veneno para se matar? Há homem tão cego que dê o veneno conhecido como veneno a seus filhos para os ver morrer diante de seus olhos? Tal foi a cegueira dos primeiros homens, e não cegueira de olhos meio abertos, como a daquele cego, senão de olhos totalmente abertos, porque tudo isto viam muito mais clara e muito mais evidentemente do que nós o vemos e admiramos. Pois, como caíram em uma cegueira tão estranha; como foram, ou como puderam ser tão cegos? Não foram cegos porque não viram, que tudo viam; mas foram cegos porque viram uma coisa por outra. O mesmo texto o diz: Vidit mulier, quod bonum esset lignum ad vescendum (Gên. 3,6): Viu a mulher que aquela fruta era boa para comer. – Mulher cega, e cega quando viste, e porque viste: vê o que vês, e não vejas o que não vês. Assim havia de ser. Mas Eva, com os olhos abertos, estava tão cega, que não via o que via e via o que não via. A fruta vedada era má para comer e boa para não comer. Má para comer, porque, comida, era veneno e morte; boa para não comer, porque, não comida, era vida e imortalidade. Pois se a fruta só para não comer era boa, e para comer não era boa, senão muito má, como viu Eva que era boa para comer: Este homem não é de Deus (Jo. 9,16). Este homem não é de Deus (Jo. 9,16). Vidit quod bonum esset ad vescendum? Porque era tão cega a sua vista, ou tão errada a sua cegueira, que, olhando para a mesma fruta, não via o que era e via o que não era. Não via que era má para comer, sendo má, e via que era boa para comer, não sendo boa: Vidit quod bonum esset.
Esta foi a cegueira de Eva, e esta é a dos filhos de Eva. Vae qui dicitis malum bonum et bonum malum.18 Andam equivocados dentro em nós o mal com o bem, e o bem com o mal, não por falta de olhos, mas por erro e engano da vista. No Paraíso havia uma só árvore vedada; no mundo há infinitas. Tudo o que veda a lei natural, a divina e as humanas, tudo o que proíbe a razão e condena a experiência, são árvores e frutas vedadas. E tal é o engano e ilusão da nossa vista, equivocada nas cores com que se disfarça o veneno, que em vez de vermos o mal certo, para o fugir, vemos o bem que não há, para o apetecer: Vidit quod bonum esset. Daqui nasce, como da vista de Eva, a ruína original do mundo, não só nas consciências e almas particulares, mas muito mais no comum dos estados e das repúblicas. Caiu a mais florente e bem-fundada república que houve no mundo, qual era antigamente a dos hebreus, fundada, governada, assistida, defendida pelo mesmo Deus. E qual vos parece que foi a origem ou causa principal de sua ruína? Não foi outra senão a cegueira dos que tinham por oficio ser olhos da república. E não porque fossem olhos de tal maneira cegos que não vissem, mas porque viam trocadamente uma coisa por outra, e em vez de verem o que era, viam o que não era. Assim o lamentou o profeta Jeremias nas lágrimas que chorou em tempo do cativeiro de Babilônia sobre a destruição e ruína de Jerusalém: Prophetae tui viderunt tibi falsa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.