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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

E quanto este onde for mais longe, tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança e de maiores virtudes. Quem há de governar e mandar três e quatro mil léguas longe do rei, onde em três anos não pode haver recurso de seus procedimentos nem ainda notícias, que verdade, que justiça, que fé, que zelo deve ser o seu! Na parábola dos talentos, diz Cristo que os repartiu o rei: Unicuique secundum propriam virtutem (Mt. 25,15): A cada um conforme a sua virtude, e que se partiu para outra região, dali muito longe, a tomar posse de um reino: Abiit in regionem longinquam accipene sibi negnum (Lc 19,12). Se isto fora história, pudera ter sucedido assim, mas se não era história senão parábola, porque não introduz Cristo ao rei e aos criados dos talentos na mesma terra, senão ao rei em uma região muito longe, e aos criados dos talentos em outra? Porque os criados dos talentos ao longe do rei é que melhor se experimentam, e ao longe do rei é que são mais necessários. Nos Brasis, nas Angolas, nas Goas, nas Malacas, nos Macaus, onde o rei se conhece só por fama e se obedece só por nome, aí são necessários os criados de maior fé e os talentos de maiores virtudes. Se em Portugal, se em Lisboa, onde os olhos do rei se vêem e os brados do rei se ouvem, faltam a sua obrigação homens de grandes obrigações, que será in regionem longinquam? Que será naquelas regiões remotíssimas, onde orei, onde as leis, onde a justiça, onde a verdade, onde a razão, e onde até o mesmo Deus parece que está longe?

Este é o escrúpulo dos que assinalam o onde; e qual será o dos que o aceitam? Que me mandem onde não convém, culpa será, ou desgraça, de quem me manda; mas que eu não repare aonde vou! Ou eu sei aonde vou, ou o não sei. Se o não sei, como vou onde não sei? E se o sei, como vou onde não posso fazer o que devo? Tudo temos em um profeta, não em profecia, senão em história. Ia o profeta Habacuc com uma cesta de pão no braço, em que levava de comer para os seus segadores, quando lhe sai ao caminho um anjo, e diz-lhe que leve aquele comer a Babilônia, e que o dê a Daniel, que estava no lago dos leões. Que vos parece que responderia o profeta neste caso? Domine, Babylonem non vidi, et lacum nescio (Dan. 14,35): Senhor, se eu nunca vi Babilônia, nem sei onde está tal lago; como hei de levar de comer a Daniel ao lago de Babilônia? Eu digo que o profeta respondeu prudente; vós direis que não respondeu bizarro, e segundo os vossos brios assim é. Se os segadores andaram aqui nas lezírias, e o recado se vos dera a vós, como havíeis de aceitar sem réplica? Como vos havíeis de arrojar ao lago, a Babilônia e aos leões? Avisam-vos para a armada, para capitão-demar-e-guerra, para almirante, para general, e sendo o lagozinho o mar oceano, na costa onde ele é mais soberbo e mais indômito, ver como vos arrojais ao lago! Acenam-vos com o governo do Brasil, de Angola, da Índia, com a embaixada de Roma, de Paris, de Inglaterra, de Holanda, e sendo estas as Babilônias das quatro partes do mundo, ver como vos arrojais a Babilônia! Há de se prover a gineta, a bengala, o bastão para as fronteiras mais empenhadas do reino, e sendo a guerra contra os leões de Espanha, tanto valor, tanta ciência, tanto exercício, ver como vos arremessais aos leões! Se vós não vistes o mar mais que no Tejo, se não vistes o mundo mais que no mapa, se não vistes a guerra mais que nos panos de Tunes, como vos arrojais ao governo da guerra, do mar; do mundo?

(continua...)

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