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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Nescitis quid petatis. São tão néscias, cristãos, as nossas petições, são tão arriscadas e tão perigosas muitas vezes, que cuidando que pedimos os bens temporais, pedimos os males eternos; cuidando que pedimos nossas conveniências, pedimos a nossa condenação. Não é conseqüência ou consideração minha, senão doutrina e conclusão expressa do mesmo Cristo. Sedere outem ad dexteram meam, vel sinistram, non est meum dare vobis, sed quibus paratum est a Patre meo16. Notável e profunda resposta! Os dois discípulos e sua mãe pediam as duas primeiras cadeiras do reino temporal de Cristo, entendendo erradamente que o Senhor havia de reinar temporalmente neste mundo, assim como Davi, Salomão, e outros reis seus primogenitores. Este era o seu pensamento, e esta a sua petição, conforme a esperança vulgar a que todos estavam persuadidos, ainda depois da ressurreição de Cristo, quando perguntaram: Domine, si in tempore hoc restitues regnum Israel17? Pois se pediam lugares e dignidades temporais, como lhes responde Cristo, quando Ihas nega, com os decretos da predestinação do Padre: Sed quibus paratum est a Patne meo? Porque os despachos das nossas petições, ainda que sejam de coisas temporais, são efeitos muitas vezes da predestinação eterna. Muitas vezes sai despachado o pretendente, porque é precito, e não sai despachado, porque é predestinado. Pediu o demônio a Deus que lhe desse poder sobre os bens e pessoa de Jó, e concedeu Deus ao demônio o que pedia o demônio. Pediu S. Paulo a Deus, e pediu-lhe três vezes, que o livrasse de uma tentação, e negou Deus a S. Paulo o que pedia S. Paulo. Pois a Paulo se nega o que pede, e ao demônio se concede? Sim, diz Santo Agostinho. Ao demônio, para maior confusão, a Paulo, para maior glória; a Paulo, como o predestinado, ao demônio como a precito. Quantos precitos estão hoje no inferno arrenegando dos seus despachos! E quantos predestinados estão no céu dando eternas graças a Deus porque os não despacharam! Dois destes predestinados não despachados, eram os dois apóstolos do nosso Evangelho, que por isso lhes disse Cristo que não sabiam o que pediam. Cuidavam que pediam dignidades e honras do mundo, e pediam, sem saber o que pediam, a sua condenação: Unus ad dexteram, et unus ad sinistram. A mão direita de Cristo, como se verá no dia do juízo, é o lugar dos que se hão de salvar; a mão esquerda é o lugar dos que se hão de condenar. E como cada um dos dois apóstolos pedia indiferentemente a mão direita ou esquerda, ambos se expunham e se ofereciam, sem o saberem, ao lugar da condenação. S. João Crisóstomo: Ego vos elegi ad dexteram, et vos, vestro judicio, curritis ad sinistram: Eu, diz Cristo, escolhi-vos para a mão direita, e vós, por vosso juízo, e por vossa vontade, sem saber o que pedis, pedis e fazeis instâncias pela mão esquerda. – Oh! quantos requerentes da mão esquerda! Oh! quantos pretendentes da condenação andam hoje em todas as cortes da Cristandade, sem saberem o que pedem e o que requerem! Andam requerendo e solicitando, e contendendo sobre quem há de levar o inferno. E os que o alcançam, ficam muito contentes, e os que o não conseguem, muito tristes.

(continua...)

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