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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Embora não tendo mais a velha crença, de que eles fossem inspirados pelos deuses, o meu respeito baseava-se em motivos mais modernos, concordes com o feitio de pensar do nosso tempo. Imaginava-os com uma tresdobrada forças de sentidos e inteligência, podendo prever, adivinhar, sentindo antes de expressos os desejos, as necessidades de cada um dos milhões de entes que sofriam e viviam, que pensavam e amavam pela vasta extensão da pátria. Foi com grande surpresa que não senti naquele doutor Castro, quando certa vez estive junto dele, nada que denunciasse tão poderosas faculdades. Vi-o durante uma hora olhar tudo sem interesse e só houve um movimento vivo e próprio, profundo e diferencial, na sua pessoa. quando passou por perto uma fornida rapariga de grandes ancas, ofuscante de sensualidade. Nada nele manifestava que tivesse um forte poder de pensar e uma grande força de imaginar, capazes de analisar as condições de vida de gentes que viviam sob céus tão diferentes e de resumir depois o que era preciso para sua felicidade e para o seu bem-estar em leis bastante gerais, para satisfazer a um tempo ao jagunço e ao seringueiro, ao camarada e ao vaqueano, ao elegante da Rua do Ouvidor e ao semibugre dos confins do Mato Grosso. Onde estava nele o poder de observação e a simpatia necessária para entrar no mistério daquelas rudes almas que o cercavam e o elegiam? Nada transpirava na sua preguiçosa e baça personalidade.

Entrando na Câmara, verifiquei que a grandiosa representação que eu fazia do legislador, não se me tinha diminuído com o exame da opaca figura do doutor Castro. Era uma exceção, mas certamente os outros deviam ser quase semideuses, mais que homens, pois eu queria-os com força e com faculdades capazes de atender e de pesar tão vários fatos, tão desencontradas considerações, tantas e tão sutis condições da existência de cada e da de todos. Para tirar regras seguras para a vida total desse entrechoque de paixões, de desejos, de idéias e de vontades, o legislador tinha que ter a ciência da terra e a clarividade do céu e sentir bem nítido o alvo incerto para que marchamos, na bruma do futuro fugidio. Quanta penetração! quanto amor! que estudo e saber não lhe eram exigidos! Era preciso tudo, tudo! A Quiromancia e a Matemática, a Grafologia e a Química, a Teologia e a Física, a Alquimia!... Era preciso saber tudo e sentir tudo! Era na verdade um vasto e alevantado oficio!

Pensando, subia a escada da Câmara dos Deputados da República dos Estados Unidos do Brasil. Ao transpor a porta que dava para a galeria, vieram-me recordações dos grandes nomes que aquela instituição vira. Primeiro, as grandes figuras dos Andradas, orgulhosos e soberbos, no meio daquela agitação dos nossos primeiros anos de vida política. Foi uma rápida evocação: os dados históricos faltavam-me e os da tradição nenhuns eram; e eu, no momento, só relembrei a calma figura do patriarca que os retratos dos compêndios nos dão, e a eloqüência tumultuária de Antônio Carlos a que freqüentemente se alude.

Com mais insistência, em seguida as conversas caseiras fizeram-me ver ali vultos mais próximos dos meus dias. Deles, me falava meu pai, em raros dias, quando deixava a reserva eclesiástica e narrava paternalmente à minha infância curiosa, cenas e fatos da vida política do Império. Foi com palavras suas que me recordei de Cotegipe, ágil e destro de espírito; do impetuoso Silveira Martins, cheio de vigor, mas difuso na aplicação de sua força; de José Bonifácio, o moço com a sua solenidade grandiosa e os seus amplos períodos de grande estilo; mas, sobretudo, do que mais me recordei naquele instante, foi da graça, da elegância, da sutileza e da medida, desse aticismo que me pintaram em Francisco Otaviano de Almeida Rosa...

Sentei-me no último degrau de uma arquibancada grosseira, junto à balaustrada, tendo embaixo o vazio de sala das sessões. Faziam a chamada. Ouvi repetir uma chusma de nomes anódinos e obscuros. Eu tinha na cabeça uma numerosidade de nomes de reis assírios, de faraós, de filósofos gregos, de generais romanos, de romancistas franceses, de poetas nacionais, de navegadores portugueses; entretanto, dos legisladores da Pátria só um tinha na memória: era o do doutor Castro, quase meu vizinho!

Feita a chamada, as bancadas começaram a povoar-se. Junto ao presidente — a seu lado, nas costas, junto aos secretários — foi-se fazendo uma aglomeração imprevista. No espaço desguarnecido entre a mesa do presidente e a primeira das bancadas, havia o transito de rua freqüentada; numa porta ao fundo, um ajuntamento de guichet de teatro em enchente.

Um grande deputado de óculos e barba quadrada tonitroou: “Peço a palavra para uma explicação pessoal”. O presidente voltou-se para um ajudante em pé, atrás e à direita, ouviu-o e, depois de tê-lo ouvido, retrucou: “Tem a palavra o Senhor Carlos Barromeu”. Com certeza, pensei, esse homem foi ofendido e vai defender-se. “Senhor Presidente” começou, “há uma patologia social como há uma individual”.

(continua...)

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