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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

Um velho maltrapilho, os pés envoltos em sujo esparto, avançou frenetico, com os olhos cheios de cólera, a longa barba, amarella e eriçada, ainda hummida de vinho e, levantando os braços, magros e guedelhudos, poz-se a rouquejar contra a victima.

— Eh ! lá, homem de Nazareth, mais depressa, que os corvos começam a estalar os bicos de impaciência. Chama os anjos para que te ajudem. Chama-os, seductor de mulheres! intrigante ! feiticeiro ! Mostra o teu poder.

E outras vozes romperam em grita :

— Foi elle que fez murchar a vinha do meu horto.

— O meu campo era fértil, elle passou junto á cerca e logo a terra, seccou e toda a planta morreu.

— Impostor ! Feiticeiro !

Uma pedra zuniu, bateu no madeiro esfarelando-se.

Jesus não levantava os olhos, seguia lento, obedecendo a uma corda que lhe haviam atado ao pescoço e que o centurião, de instante a instante, em empuxo, atesava. Acompanhavamno dois criminosos, levando cruzes mais leves. Eram ladrões, Mas o povo não parecia dar por elles, só em Jesus reparava tornando-o alvo de todas as chufas e brutalidades.

Às portas das casas sairiam os moradores: operarios com as suas ferramentas, mãis amamentando os filhos, mulheres coitadas de mitras, em tunicas tão leves que o ar enfunavaas ou lh'as apegava ás fôrmas com a facilidade com que desfaz o fumo, os braços nus, enrodilhados em braceletes de ouro, os peitos brancos desnudos, acenando aos mancebos, chamando-os para pedir informações.

Algumas apoiavam-se, com languidez, em escravas que traziam flabelos de longas plumas ou lyras.

Nos eirados agitavam-se chusmas de curiosos, os braços erguidos, sustendo túnicas abertas ao sol á maneira de velarios. Os pombos voavam assustadamcnte com um forte estalar d'azas.

Á medida que a marcha se alongava mais, crescia a multidão vociferadora.

O martyr arfava, alagado em suor e em sangue; as pernas tremiam-lhe, por vezes dobravam-se. De instante a instante as buzinas roucas estrugiam.

Passava Jesus diante do um casebre, cujos muros, .tendidos e hirsutos d'hervas, ameaçavam ruir, quando lhe sahiu ao passo uma mulher piedosa e, com um panno de linho novo, enxugou-lhe o rosto, levando estampada na lençaria as divinas feições do paciente.

O povo rompeu em assuada, aos ganidos. Um homem avançou de repellão, tentando arrancar das mãos da mulher o panno ensangüentado, mas estacou levando as mãos ambas ao peito: o rosto ennegreceu-lhe, turgido, saltaram-lhe os olhos vermelhos como postas de sangue, ferveu-lhe á boca uma espuma rubra e, com um rugido de dôr, rolou por terra, morto. E logo tresandou tão insupportavelmente que o povo fez um claro em volta do cadáver ainda quente e já desfazendo-se como velha carniça.

A boca aberta e secca, respirando aos arquejos, e tão alto que se lhe ouvia o stertor oppresso, ia indo Jesus aos arrancos. Vergava o dorso e, a mais e mais, falhavam-lhe os passos tropegos. De repente, num estremeção, dobraram-se-lhe mollemente as pernas e teria tombado ao peso do madeiro se mãos prestes o não houvessem amparado, não por piedade, mas por interesse cruel, por que seria uma decepção para o povo se o nazareno succumbisse á fadiga, quando todos contavam com o espectaculo mais interessante da crucificação.

Ia o cortejo cruzando a Porta Judiciaria quando um grito lancinante atravessou, o resôo da marcha e o estuar rumoroso das falas, fazendo a multidão estacar de improviso.

Uma mulher estava de pé, entre as silvas do caminho, livida, os olhos muito abertos, os magros e enfraquecidos braços alongados em desespero para o Martyr, balbuciando palavras que lhe morriam nos labios, afogadas no pranto que os olhos despejavam.

Não se tirava do lugar. As hervas, que se lhe agarravam ás vestes, pareciam retê-la e o seu corpo esguio, macilento, tremia todo com violência tamanha que os cabellos, já grisalhos, despenharam-se-lhe pelos hombros agudos.

Era Maria.

Como o centurião tirasse pelo baraço fazendo caminhar o condemnado, a misera lançou-se allucinadamente por entre os homens, passou por elles sem notar nos soldados que cruzavam as lanças para contê-la, deixando no ferro de uma farrapos da túnica. E entrou no cerco doloroso.

Chegou a Jesus e, inclinando-se, tomou-lhe o rosto nas mãos, poz-se a beijá-lo com ânsia, lavando-o em lagrimas. E chamava-o em voz surda e meiga :

— Ó Filho meu! Meu Filho !

Mas a turba rosnava, vozes protestaram:

— Afastai-a d'ahi! Faz-se tarde. Cumpra-se a ordem de Pilatos. Morra o sedicioso !

E o centurião poz-se a caminho, levando a victima quasi de rastos.

As buzinas troavam tirando echos melancólicos dos valles e o som ia tão longe que se via, nos resequidos barrancos, por entre as rochas áridas, fugirem corpos brancos, corno pedras que rolassem, que eram ovelhas que o susto dispersava.

O caminho pedrento, recavado em sulcos, queimava como rescaldo.

(continua...)

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