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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

O cunhado estava na Europa e grande parte da casa vivia fechada, só vindo a conhecer algumas dependências quando a velha tia de Cogominho, D. Romana, voltou de Sepotuba. A velha fazia abrir, varrer e espanar tudo aquilo diariamente e movia-se dentro do casarão com a liberdade de quem conheceu daqueles como centro de léguas quadradas de uma fazenda.

Era de supor que Numa esperasse por tudo isso, mas não pedia tanto a sua ambição de posição e dinheiro. Nela, não havia necessidade interna de grandeza, de luxo, de comodidade, de magnificência; havia tão somente preguiça, preguiça física preguiça mental, vontade de ficar a coberto dos vaivens da sorte, das “rebordosas”, o pavor nacional do dia de amanhã. Ficou estranho à casa, às alfaias e continuou com os seus hábitos medíocres.

Após a café e a leitura dos jornais, viera o deputado até a sala de visitas espairecer um pouco. Vinha ver pelas janelas a rua que lhe ficava em frente da casa. Antes de espiar o movimento matinal do bairro, quis o acaso que examinasse um pouco os adornos da sala. Aí, parou um pouco, convidado por esse ou aquele móvel. Julgou uns antipáticos, gostou dos antigos, pesados e amplos; examinou os bibelôs e demorou-se a considerar uma estatueta de bronze. Sentada em êxedra, de marfim, uma mulher tinha os braços abertos sobre os ramos da cadeira. O busto estava nu, a parte inferior coberta, e, aos pés, uma coroa de louros. Viu-lhe o olhar perscrutador, a expressão do rosto de serena imaterialidade, a atitude geral de suspensão. Olhou-a ainda demoradamente e descobriu qualquer coisa naquele pedaço de bronze que até ali não tinha sentido nunca. Afastou-se um pouco, examinou um biscuit, um outro bronze; mas, sempre aquela mulher em expectativa, à espera não sei de que atraía o seu exame.

Teve medo de apanhá-la; afinal, o fez. Leu alguma coisa na base; não decifrou bem ou não teve confiança na leitura. Apesar da manhã muito clara, devido às cortinas, a luz entrava escassamente e a sala estava em uma meia penumbra. Trouxe-a bem junto à janela e leu claramente: Histoire — História!

Numa não precisou bem a relação entre a estatueta e a legenda, mas ainda assim olhou o bronze, o modo natural de seus braços abertos, a sua serenidade total, quando lhe avisaram que havia uma pessoa que queria falar-lhe. Leu o cartão e mandou que fizesse entrar para a saleta o Sr. Fuas Bandeira, diretor do Diário Mercantil.

Apurou melhor a “toilette” matinal e foi ao encontro do jornalista, depois de ter ao acaso lançado o olhar sobre o retrato do avô de sua mulher, enquadrado em uma grande moldura dourada.

Fuas Bandeira desculpou-se preliminarmente por ter vindo incomodá-lo tão cedo e expôs com franqueza o objeto da sua visita. A rejeição do “veto” oposto ao projeto de venda da Estrada de Mato Grosso devia ser posta em ordem do dia e Fuas esperava que Numa voltasse pela rejeição.

O legislador afastou da lembrança a figura da estatueta e respondeu:

— Qual é a opinião de Bastos?

— A mim, meu caro doutor, ele já me disse que não tinha opinião firmada.

Dá mesmo a entender que é questão aberta...

— Mas não disse claramente?

— Não, não disse. O doutor sabe como é o Dr. Bastos. Ele não costuma dizer, quando se trata de insignificâncias. penso assim ou não. Parece-lhe que dizer a tal respeito a sua opinião é insinuar que os seus amigos votem com ele. O Dr. Bastos já está tão farto de ouvir dizer que ele violenta a consciência dos seus amigos, que é um ditador, que é a sua vontade que domina a dos outros, que ele é o partido. Ora, doutor, quando se trata dessas coisas de nonada, ele abstém-se de falar para que os republicanos votem como entendam.

— Mas no caso do Peixoto...

— Ah! doutor! O caso aí outro. Tratava-se, é verdade, de uma licença, mas Peixoto é inimigo do partido, inimigo acérrimo. Com o caso da Estrada, não há nada disso, posso garantir-lhe!

— E o povo?

— O povo! O povo! Que tem o povo com estas questões? Por acaso ele pode raciocinar sobre finanças? Creio que não, meu caro doutor. Não é a sua opinião?

— Dizem que o governo gastou cem mil contos e vai vender pela metade.

— Não é certo; mas, se o fosse, valia a pena contar também com o “déficit” que ela dá. A operação, meu caro doutor, traz desafogo para o governo, não só para já, como para o futuro. O meu interesse como republicano, é facilitar meios de vida à república e também educar o Brasil no caminho da iniciativa particular. Se até agora ela não se tem feito sentir na economia do país, é devido à timidez dos senhores diante da algazarra dos caluniadores.

A teimosa fragilidade da estatueta passou de novo pelos olhos do antigo juiz de Catimbao.

Fuas Bandeira acendeu o charuto e continuou de pé:

— O doutor, certamente, conhece bem a questão?

— Pouco.

— Pois se quer... Ah!

— Que procuras, Sr. Fuas?

— A minha pasta... Está no automóvel.

Numa fez vir o criado para buscá-la e dela tirou o jornalista um folheto explicativo sobre a vantagem da operação. Ainda falaram sobre outras questões; Fuas não aceitou o almoço e despediu-se recomendando:

(continua...)

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