Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão do Mandato

Por Padre Antônio Vieira (1670)

O “Sermão do Mandato”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1655, na Misericórdia de Lisboa, durante a celebração da Quinta-feira Santa. Nesse contexto religioso, Vieira reflete sobre o amor de Cristo e sua entrega aos homens. O sermão compara o amor de Cristo no momento da Encarnação e no momento de sua partida, destacando a grandeza e a perfeição do amor divino.

EM ROMA, NA IGREJA DE SANTO ANTÔNIO DOS PORTUGUESES.

ANO DE 1670 


Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem, cum dilexisset suos, qui erant in mundo, infinem dilexit eos.

§I

O mais extremo do amor de Cristo para conosco foi ausentar-se de nós.

Este é aquele texto saudoso e suavíssimo, este é aquele mistério, ou enigma grande do amor tantas vezes repetido nesta hora, tantas vezes e por tantos modos encarecido, tantas vezes e tão sutilmente interpretado, mas nunca assaz entendido. Diz o evangelista S. João, que se porte Cristo, e que nos ama. Que se porte: Ut transeat ex hoc mundo; que nos ama: Infinem dilexit eos. Mas se nos ama, como se porte? Se nos ama, como se ausenta de nós? Mais diz o evangelista. Não só diz que nos ama Cristo, e que se porte, não só diz que nos ama e que se ausenta de nós, senão que nesta mesma hora em que se partiu, nesta mesma hora em que se ausentou, havendo-nos amado sempre tanto, então, ou agora, nos amou mais: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo, cum dilexisset suos, infinem dilexit eos.

Se dissera isto outro evangelista, não me admirara tanto. Mas João, a águia do entendimento e a fênix do amor? João, o secretário do peito de Cristo? João, aquele discípulo que entre todos soube melhor amar, e mereceu ser mais amado, que me diga que se porte Cristo, que se ausenta, que nos deixa, que se vai de nós, e que nos ama? Que nos ama, e que agora nos amou mais? Não a entendo. Se me dissera S. João que se ausentava Cristo, porque estava arrependido de nos amar; que se ausentava porque aqueles primeiros extremos do seu amor, o tempo, que acaba tudo, os acabara; se me dissera que, obrigado de nossas más correspondências, que ofendido de nossos desprimores, que cansado de nossas ingratidões, que desenganado de nossa pouca fé, já nos aborrecia, ou já nos desamava, e que por isso deixa a mundo e se ausenta dos homens, se isto me dissera S. João, sentira-o eu muito, mas conhecera a razão e a conseqüência. Confessaria, e confessaríamos todos, que obrava Cristo como quem é, e que nos tratava como quem somos. Amou-nos sem a merecermos, ausentase porque lhe merecemos. O amor o trouxe, e desamor o leva; por isso se vai e nos deixa. Mas que diga a evangelista constantemente que não é desamor, senão amor, e que quando Cristo se ausenta de nós, então obrou a maior fineza, então subiu ao maior extremo, então chegou ao último fim aonde podia chegar amando: Cum dilexisset suas, infinem dilexit eos?

O verdadeiro entendimento desta amorosa implicação será a matéria do nosso discurso, e a mesma razão de duvidar nas dará a solução da dúvida. Veremos com assombro de todas as leis do amor, como o maior extremo do amor de Cristo para conosco foi o ausentar-se de nós. É o que dizem as palavras do texto: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo: eis aí o ausentar-se de nós; Cum dilexisset suas, in finem dilexit eos: eis aí o maior extremo de seu amor. Porece paradoxo, mas é extremo. Amou Cristo tanto aos homens que os deixou e se foi: porece paradoxo. Amou Cristo tanto aos homens que chegou por eles a aportar-se deles: este é o extremo, e isto é o que diz o evangelista. Nos homens, a hora da portida é o fim do amor; em Cristo, o fim do amor foi a hora da portida: Sciens quia venit hora ejus, infinem dilexit eos. Dizer menos é descer; subir mais, não há para onde. E como este foi o ponto mais alto onde pode chegar o amor de Cristo, este será também o ponto único em que começará e acabará nosso discurso. Peçamos ao mesmo amor, pelos merecimentos daquele coração, que só o soube corresponder dignamente, nos assista nesta hora sua com a sua graça. Ave Maria.

§II

Três poderosos opositores ao pensamento do autor: o amor, a morte, o Sacramento. O amor forte, no dizer de Salomão, é como a morte, e como ela separa. O amor unitivo, causa da Encarnação de Cristo, o amor forte causa do aportamento de Cristo. Aportar-se quem ama de quem ama, eis o último extremo a que pode chegar o amor. O estranho cântico da Esposa dos Cantares. Finezas do Esposo e da Esposa dos Cânticos. S. João conclui o livro de Salomão.

Ut transeat ex hoc mundo, in finem dilexit eos.

Amou Cristo tanto aos homens, que chegou por eles a aportar-se deles. Este é o meu assunto, e este digo que foi o maior extremo do amor de Cristo. Mas que vejo? Naquele monumento sagrado, naquele mistério sacrossanto (que é a cifra do amor, e o memorial da morte de Cristo), vejo postos em campo contra este meu pensamento três poderosos opositores: o Sacramento, a morte, e o mesmo amor. O amor diz que não pode ser amor o aportar-se Cristo de nós; o Sacramento diz que o deixar-se conosco foi a maior fineza; a morte diz que o morrer por nós foi o maior extremo de todos. Estes são os assombros com que as ações mais heróicas do amor de Cristo hoje, e com que as mesmas leis do amor se opõem à novidade do nosso assunto. Mas essas mesmas nos dividirão o discurso, e nos servirão de degraus para mais o subir de ponto.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →