Por Padre Antônio Vieira (1652)
O “Sermão no Sábado Quarto da Quaresma”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em Lisboa, em 1652, durante a Quaresma, com o objetivo de orientar os fiéis sobre os perigos da tentação. Vieira argumenta que os homens podem ser tentadores mais perigosos que o demônio. Por meio de exemplos bíblicos e argumentos religiosos, o sermão ensina como resistir às tentações e buscar a conversão.
Hoc autem dicebant tentantes eum, ut possent accusare eum.
§I
Cristo tentado pelos homens no caso da mulher adúltera.
Outra vez – quem tal imaginara? – outra vez tentado a Cristo. Não há que fiar em vitórias. A mais estabelecida paz é trégua. Quando cessam batalhas, então se fabricam as máquinas. A máquina da tentação que hoje temos, é admirável juntamente, e formidável, e não foi o maquinador nem o tentador o demônio: foram os homens. Destes tentadores e destas tentações hei de tratar. Ouçamos primeiro o caso.
Tal dia, ou tal noite, como a deste dia, diz S. João que foi Cristo orar no Monte Olivete. Sabia que havia de ser tentado; foi-se armar para a batalha com a oração. Em Cristo foi exemplo; em nós é necessidade. Não tem armas a fraqueza humana, se as não pede a Deus. Até aqui não houve perigo. Do monte, e muito de madrugada, veio o Senhor ao Templo a pregar, como costumava. E diz o evangelista que concorreu todo o povo a ouvi-lo: Et omnis populus venit ad eum (Jo. 8,2). Tanto concurso, pregador divino? Já temo que vos hão de tentar. Veio o povo todo àquela hora, porque os que não são povo não madrugam tanto: põe-se-lhes o sol à meia-noite, e amanhece-lhes ao meio-dia. Estava o Senhor ensinando, diz o texto, quando chegaram os escribas e fariseus a perguntar um caso. Traziam uma pobre mulher atada, e disseram assim: Magister, haec mulier modo deprehensa est in adulterio (Jo. 8, 4): Esta mulher nesta mesma hora foi achada em adultério. Esta mulher? E o cúmplice? Foram dois os pecadores, e é uma só a culpada? Sempre a justiça é zelosa contra os que podem menos. Moisés, dizem, manda na lei que os que cometerem adultério sejam apedrejados; e vós Mestre, que dizeis? Os escribas e fariseus eram os doutores daquele tempo. Bem me parecia a mim, que quando os doutos e presumidos perguntam, não é para saber, senão para tentar. Assim o diz o evangelista nas palavras que propus: Hoc autem dicebant tentantes eum. Em que consistiu a tentação, e onde estava armado o laço, diremos depois. E que respondeu o Senhor? Levantou-se da cadeira sem falar palavra, e inclinando-se, inclinans se: Alvíssaras, pecadora, enxuga as lágrimas. Cristo começa inclinando-se? Tu sairás perdoada porque a sua inclinação não é de condenar. Deus nos livre de juízes inclinados, se não são Deus. Aonde vai a inclinação, lá vai a sentença. Não quis o Senhor responder por palavra, quiçá por que lhas não trocassem; respondeu por escrito. Digito scribebat in terra: Escrevia com o dedo na terra (Ibid. 6). Não vos espanteis que no templo lajeado de mármores houvesse terra: literalmente, porque era muito o concurso e pouco o cuidado; moralmente, porque não há lugar tão santo e tão sagrado, ainda que seja a mesma igreja, em que não haja terra. O que Cristo escrevesse, não se sabe de certo. Entendem comumente os Padres que foram os pecados dos acusadores. Que acuse o homicida ao homicida, o ladrão ao ladrão, o adúltero ao adúltero? Homem, acusa-te a ti; olha que quando acusas os pecados alheios, te condenas nos próprios. Assim sucedeu. Depois que o Senhor escreveu o processo, não da acusada, senão dos acusadores, levantou-se e não lhes disse mais que estas palavras: Qui sine pecato est vestrum, primus in ilíam lapidem mittat (Ibid. 7): Aquele de vós que se achar sem pecado, seja o primeiro que atire as pedras. Aqui me lembram as de S. Jerônimo. As pedras que traziam aparelhadas contra a delinqüente, converteu-as cada um contra o peito, e os que tinham entrado tão zelosos, começaram a se sair confusos. Saíram-se, porque entraram na própria consciência. E nota o evangelista, que os que saíram primeiro foram os mais velhos: Incipientes a senioribus (Ibid. 9). Miserável condição da vida humana! Quantos mais anos, mais culpas. Todos se devem arrepender das suas, mas com mais razão, e mais depressa, os que estão mais perto da conta. Ficou só Cristo e a delinqüente, isto é, a misericórdia e a miséria. Perguntou-lhe: Onde estão os que te acusam? Condenou-te alguém? Nemo, Doinine (Ibid. 11). Ninguém senhor. Pois se ninguém te condena, nem eu te condenarei; vai-te e não peques mais. – Este foi o fim da história, admirável na justiça, admirável na misericórdia, admirável na sabedoria, admirável na onipotência. A lei ficou em pé, os acusadores confusos, a delinqüente perdoada, e Cristo livre dos que o vieram tentar. Esta tentação, como dizia, será a matéria do nosso discurso. Peçamos a graça a quem a dá tão facilmente, até aos que a não merecem. Ave Maria.
§II
Antes de tratar com os homens, Cristo convive com os animais, e é tentado pelo demônio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.