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#Sátiras#Literatura Brasileira

Celebra o poeta (estando homiziado no Carmo) a burla que fizeram os religiosos com uma patente falsa de prior a Frei Miguel Novelos, apelidado o Latino, por divertimento em um dia de muita chuva

Por Gregório de Matos (1696)

Poema satírico atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no fim do século XVII. Preservado em manuscritos e publicado apenas em edições críticas, narra com humor a brincadeira feita no Convento do Carmo com uma falsa patente de prior.

Victor, meu Padre Latino,

que só vós sabeis latim,

que agora se soube enfim,

para um breve tão divino:

era num dia mofino

de chuva, que as canas rega,

eis a patente aqui chega,

e eu por milagre o suspeito

na Igreja Latina feito,

para se pregar na grega.


Os sinos se repicaram

de seu moto natural,

porque o Padre Provincial,

e outros Padres lhe ordenaram:

os mais Frades se abalaram

a lhe dar obediência,

e eu em tanta complacência,

por não faltar ao primor,

dizia a um Victor Prior,

Victor, vossa Reverência.


Estava aqui retraído

o Doutor Gregório, e vendo

um breve tão reverendo

ficou co queixo caído:

mas tornando em seu sentido

de galhofa perenal,

que não vi patente igual,

disse: e é cousa patente,

que se a patente não mente,

é obra de pedra, e cal.


Victor, Victor se dizia,

e em prazer tão repentino,

sendo os vivas ao latino

soavam a ingresia:

era tanta a fradaria,

que nesta casa Carmela

não cabia refestela,

mas recolheram-se enfim

cada qual ao seu celim,

e eu fiquei na minha cela.

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