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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Pondera estando homiziado no Carmo quão gloriosa he a paz da Religião

Por Gregório de Matos (1696)

Poema religioso atribuído a Gregório de Matos, composto provavelmente na Bahia no final do século XVII. Como quase toda a obra do autor, circulou apenas em manuscritos e só foi editado em publicações modernas. O texto reflete o recolhimento espiritual do poeta enquanto homiziado no convento do Carmo.

Quem da religiosa vida não se namora, e agrada,

já tem a alma danada,

e a graça de Deus perdida:

uma vida tão medida

pela vontade dos Céus,

que humildes ganham troféus,

e tal glória se desfruta,

que na mesa a Deus se escuta,

no Coro se louva a Deus.



Esta vida religiosa

tão sossegada, e segura

a toda a boa alma apura,

afugenta a alma viciosa:

há cousa mais deliciosa,

que achar o jantar, e almoço

sem cuidado, e sem sobrosso

tendo no bom, e mau ano

sempre o pão quotidiano,

e escusar o Padre nosso!



Há cousa como escutar

o silêncio, que a garrida

toca depois da comida

pare cozer o jantar!

há cousa como calar,

e estar só na minha cela

considerando a panela,

que cheirava, e recendia

no gosto de malvasia

na grandeza da tigela!



Há cousa como estar vendo

uma só Mãe religião

sustentar a tanto Irmão

mais, ou menos Reverendo!

há maior gosto, ao que entendo,

que agradar ao meu Prelado,

para ser dele estimado,

se ao obedecer-lhe me animo,

e depois de tanto mimo

ganhar o Céu de contado!



Dirão réprobos, e réus,

que a sujeição é fastio,

pois para que é o alvedrio,

senão para o dar a Deus:

quem mais o sujeita aos céus,

esse mais livre se vê,

que Deus (como ensina a fé)

nos deixou livre a vontade,

e o mais é mor falsidade,

que os montes de Gelboé.



Oh quem, meu Jesus amante,

do Frade mais descontente

me fizera tão parente,

que fora eu seu semelhante!

Quem me vira neste instante

tão solteiro, qual eu era,

que na Ordem mas austera

comera o vosso maná!

Mas nunca direi, que lá

virá a fresca Primavera.

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