Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Portuguesa

Talvez quem vê bem não sirva para sentir - O Pastor Amoroso

Por Fernando Pessoa (1929)

Este poema integra a obra “O Pastor Amoroso”, escrita entre 1914 e 1930. Embora alguns poemas avulsos tenham aparecido em revistas literárias, a reunião definitiva só foi publicada em livro em 1946.

Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrade por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as cousas,
E cada cousa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como de antes,
E eu continuo como era de antes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o grande sol queima a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.

Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz cousas que não há nas palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.

Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →