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#Poemas em verso#Literatura Portuguesa

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Por Fernando Pessoa (1914)

Este poema integra a obra “O Guardador de Rebanhos”, escrita em 1914 e publicada em 1925, por Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem dura
Ou quando fica a noite
E as flores são cor da lembrança.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças a mim e à terra
E aos meus olhos e ouvidos convictos
E à minha clara contiguidade de alma...

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