Por Fernando Pessoa (1914)
Este poema integra a obra “O Guardador de Rebanhos”, escrita em 1914 e publicada em 1925, por Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
O que nós vemos das cousas são as cousas...
Porque veríamos nós uma cousa, se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos,
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa...
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que as vemos estrelas e flores.
PESSOA, Fernando. Poemas de Alberto Caeiro. Edição de Ivo Castro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2020. Disponível em: https://imprensanacional.pt/wp-content/uploads/2022/03/Poemas-de-AlbertoCaeiro.pdf . Acesso em: 15 jul. 2026.