Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Chamam os índios cururus aos sapos da Espanha, que não têm nenhuma diferença, mas não mordem, nem fazem mal, estando vivos; mortos, sim, porque o seu fel é peçonha mui cruel, e os fígados e a pele, da qual o gentio usa quando quer matar alguém. Estes sapos se criam pelos telhados, e em tocas de árvores e buracos das paredes, os quais têm um bolso na barriga em que trazem os ovos, que são tamanhos como avelãs e amarelos como gema de ovos, de que se geram os filhos, onde os trazem metidos até que saiam para buscar sua vida; estes sapos buscam de comer de noite, a que os índios comem, como às rãs; mas tiram-lhes as tripas e forçura fora, de maneira que lhe não arrebente o fel; porque se arrebenta fica a carne toda peçonhenta, e não escapa quem a come, ou alguma coisa da pele e forçura.E porque as rãs são de diferentes feições e costumes, digamos logo de umas a que os índios chamam juiponga, que são grandes, e quando cantam parecem caldeireiros que malham nas caldeiras; e estas são pardas, e criam-se nos rios onde desovam cada lua; as quais se comem, e são muito alvas e gostosas.Desta mesma casta se criam nas lagoas, onde desovam enquanto tem água, mas, como se seca, recolhem-se para o mato nos troncos das árvores, onde estão até que chove, e como as lagoas têm qualquer água, logo se tornam para elas, onde desovam; e os seus ovos são pretos, e de cada um nasce um bichinho com barbatanas e rabo, e as barbatanas se lhes convertem nos braços, e o rabo se lhes converte nas pernas. Enquanto são bichinhos lhes chamam os índios juins, do que há sempre infinidade deles, assim nas lagoas como no remanso dos rios; do que se enchem balaios quando os tomam, e para os alimparem apertam-nos entre os dedos, e lançam-lhes as tripas fora, e embrulhamnos às man-cheias em folhas, e assam-nos no borralho; o qual manjar gabam muito os línguas que tratam com o gentio, e os mestiços.Juijiá é outra casta de rãs, que são brancacentas, e andam sempre na água, e quando chove muito falam de maneira que parecem crianças que choram, as quais se comem esfoladas, como as mais; e são muito alvas, e gostosas.Há outra casta de rãs, a que os índios chamam juií; e são muito grandes, e de cor pretaça; e desovam na água como as outras, as quais, depois de esfoladas, têm tamanho corpo como um honesto coelho.Cria-se na água outra casta de rãs, a que os índios chamam juiperereca, que saltam muito, em tanto que dão saltos do chão em cima dos telhados, onde andam no inverno, e cantam de cima como chove; as quais são verdes, e desovam também na água em lugares úmidos; e esfoladas comem-se como as outras.Há outra casta de rãs, a que os índios chamam juiguaraigaraí, que são pequenas, e no inverno, quando há de fazer sol e bom tempo, cantam toda noite no alagadiço, onde se criam, o qual sinal é muito certo; estas são verdes, e desovam na água que corre entre junco ou rama, também esfoladas se comem e são muito boas.Como não há ouro sem fezes, nem tudo é a vontade dos homens, ordenou Deus que entre tantas coisas proveitosas para o serviço dele, como fez na Bahia, houvesse algumas imundícias que os enfadassem muito, para que não cuidassem que estavam em outro paraíso terreal, de que diremos daqui por diante, começando no capítulo que se segue das lagartas.
C A P Í T U L O CXVI
Que trata das lagartas que se criam na Bahia.
Soca chamam os índios à lagarta, que é também como bichos-daseda, quando querem morrer que estão gordos, a qual se cria de borboletas grandes que vão de passagem. Às vezes se cria essa lagarta com muita água e morre como faz sol; outras vezes se cria com grande seca e morre como chove. Uma e outra destrói as novidades de mandioca, algodão, arroz; e faz mal à cana nova de açúcar, e às vezes é tanta esta lagarta, que vão as estradas cheias delas, e deixam o caminho varrido da erva, e escaldado. E quando dão nas roças da mandioca chasqueiam de maneira que se ouve um tiro de pedra, às quais comem os olhinhos novos, e depois as outras folhas; e muitas vezes é tanta que comem a casca dos ramos da mandioca; e se se não muda o tempo, destroem as novidades de maneira que causa haver fome na terra, e o chão por onde esta praga passa, ainda que seja mato, fica escaldado de maneira que não cria erva em dois anos.Imbuá é outra casta de lagartas verdes pintadas de preto e a cabeça branca, e outras pintadas de vermelho e preto, e todas são tão grossas como um dedo, e de meio palmo de comprido, com muitas pernas, e as quais crestam a terra e árvores por onde passam.Há outras, mais pequenas que as de trás, que são pretas, de cor muito fina, todas cheias de pêlo tão macio como veludo, e tão peçonhento que faz inchar a carne se lhe tocam, com cujo pêlo os índios fazem crescer a natura; e chamam a estas socaúna.Nos limoeiros e em outras árvores naturais da terra se criam outras lagartas verdes, todas cobertas de esgalhos verdes, muito sutis e de estranho feitio, tão delgados como cabelos da cabeça, o que é impossível poder-se contrafazer com pintura; estas têm os índios por mais peçonhentas que todas, e fogem muito delas; e afirmam que fazem secar os ramos das árvores por onde passam com lhes morderem os olhos.Em que outras árvores, que se chamam cajueiros, se criam umas lagartas ruivaças, tamanhas como as das couves em Portugal, todas cobertas de pêlo, as quais sentem gente debaixo, sacodem este pêlo de si, e na carne onde chega, se levanta logo tamanha comichão, que é pior que a das urtigas, o que dura todo um dia; e criamse estas nos ramos velhos.
C A P Í T U L O CXVII
Que trata das lucernas, e de outro bicho estranho.
Na Bahia se criam uns bichos, a que os índios chamam mamoás, aos quais chamam em Portugal lucernas, e outros caga-lume, que andam em noites escuras, assim em Portugal como na Bahia, em cujos matos os há muito grandes; os quais entram de noite nas casas às escuras, onde parecem candeias muito claras, porque alumiam uma casa toda, em tanto que às vezes uma pessoa de súbito vendo a casa clara, deitando-se às escuras, de que se espanta, cuidando ser outra coisa; dos quais bichos há muita quantidade em lugares mal povoados.Também se criam outros bichos na Bahia mui estranhos, a que os índios chamam buijeja, que são do tamanho de uma lagarta de couve, o qual é muito resplandecente, em tanto que estando de noite em qualquer casa, ou lugar fora dela, parece uma candeia acesa, e quando anda é ainda mais resplandecente. Tem este bicho uma natureza tão estranha que parece encantamento, e tomando-o na mão parece um rubi, mui resplandecente, e se o fazem em pedaços, se torna logo a juntar e andar como dantes; e sobre acinte se viu por vezes em diferentes partes cortarse um destes bichos com uma faca em muitos pedaços, e se tornarem logo a juntar; e depois o embrulharam num papel durante oito dias, e cada dia o espedaçavam em migalhas, e tornava-se logo a juntar e reviver, até que enfadava, e o largavam.
C A P Í T U L O CXVIII
Que trata da diversidade e estranheza das aranhas e dos lacraus.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.