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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Surucucu são umas cobras muito grandes e brancas na cor, que andam pelas árvores, de onde remetem à gente, e à caça que passa por junto delas, as quais têm os dentes tamanhos que quando mordem levam logo bocado de carne fora. Destas cobras são os índios muito amigos, e tomam-nas numas armadilhas que chamam mundéus, e se o macho acha ali a fêmea presa e morta, espera ali o armador, com que se cinge, e não o larga até que o mata, e torna a esperar ali até que venha outra pessoa, a quem morde sómente, e com esta vingança se vai daquele lugar.Há outra casta de cobras, a que os índios chamam tiopurana, que são de quarenta e cincoenta palmos de comprido, que não mordem nem fazem mal a gente nenhuma, e mantêm-se da caça que tomam. Estas tomam os índios às mãos, quando são novas, e prendem-nas em casa, onde as criam, e se fazem tão domésticas que vão buscar comer ao mato, e tornam-se para casa, cuja carne é muito saborosa.Caninanas são outras cobras meãs na grandura, com a pele preta nas costas e amarela na barriga, as quais criam no côncavo de paus podres, e são muito peçonhentas, e os mordidos delas morrem muito depressa, se lhes não acodem logo.Boiubu quer dizer "cobra verde" que não são grandes, e criam-se no campo, onde se mantêm com ratos que tomam. Estas também mordem gente se podem, mas são muito peçonhentas, as quais se enroscam com as lagartixas, ratos e com outros bichos com que se atrevem, que também matam para comer.Há outra casta de cobras, a que os índios chamam ubiracoá, que são pequenas e de cor ruivaça, as quais andam sempre pelas árvores, de onde mordem no rosto e pelos lugares altos das pessoas, e não se descem nunca ao chão; se não acodem a mordedura desta com brevidade, é a sua peçonha tão fina que faz arrebentar o sangue em três horas por todas as partes, de que o mordido morre logo.Urapiagaras são outras cobras, que andam pelas árvores salteando pássaros, e a comer-lhes os ovos nos ninhos, de que se mantêm; as quais não são grandes, mas muito ligeiras.


C A P Í T U L O CXIV
Que trata dos lagartos e dos camaleões.


Nas lagoas e rios de água doce se criam uns lagartos a que os índios chamam jacaré, dos quais há alguns tamanhos como um homem; e têm a cabeça como um grande lebréu; estes lagartos são todos cobertos de conchas muito rijas, os quais não remetem à gente, antes fogem dela; e mantêm-se do peixe que tomam, e da erva que comem ao longo da água; e há alguns negros que lhes têm perdido o medo, e se vão a eles, chamando-os pelo seu nome; e vão-se chegando a eles até que os tomam às mãos e os matam para os comerem; cuja carne é um tanto adocicada, e tão gorda que tem na barriga banha como um porco, a qual é alva e saborosa e cheira bem. Os testículos dos machos cheiram como os dos gatos-de-algália, e às fêmeas cheira-lhes a carne de junto do vaso muito bem.No mato se criam outros lagartos, a que os índios chamam sinimbus, que também são muito grandes, mas não tamanhos como os jacarés; estes remetem à gente; criam-se nos troncos das árvores; cuja carne é muito boa e saborosa.Criam-se no mato outros lagartos tamanhos como os de cima, a que os índios chamam tejuaçu, os quais são mansos, e criam-se em cova na terra; mantêm-se das frutas que buscam pelo mato; cuja carne é havida por muito boa e saborosa. Pelos inatos se criam outros lagartos pequenos pintados como os da Espanha, a que os índios chamam jacarepinima, os quais criam por entre as pedras, e em tocas de árvores, com os quais têm as cobras grandes brigas.Anijuacangas são outros bichos que não têm nenhuma diferença dos camaleões, umas são muito maiores que os da África, cuja cor naturalmente é verde, a qual mudam como fazem os da África, e estão logo presos a uma janela um mês sem comerem nem beberem; e estão sempre virados com o rosto para o vento, de que se mantêm; e não querem comer coisa que lhes dêem, do que comem os outros animais; são muito pesados no andar, e to-mam-nos às mãos, sem se defenderem; os quais têm o rabo muito comprido, e têm um modo de barbatanas nele como os cações.


C A P Í T U L O CXV
Que trata da diversidade das rãs e sapos que há no Brasil.

(continua...)

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