Por Eça de Queirós (1888)
- A coisa é esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem lá negocíos. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, á espera, dois ou tres mezes. Diz que já andaram até a vêr casas mobiladas, que ella não quer estar no hotel... E eu, intimo, a única pessoa que ella conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora?
- Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura já está fascinada! Já lhe déste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! Já a desgraçada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a abandonares!
Damaso enfiava.
- Não venhas já tu com o espirito e com a chufasinha... Não lhe dei beijos que ainda não houve occasião... Mas, o que te posso dizer, é que tenho mulher!
- Pois já era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e atirando-lhe as palavras como chicotadas. Já era tempo! Andavas ahi mettido com umas creaturas ignobeis, uma ralé de lupanar... Emfim, agora ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de sentimentos decentes... Mas vê lá... Não sejas o costumado Damaso! Não te vás pôr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza! D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo, semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido:
- Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas lá a respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, não me dás licções...
Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente, sentio-o tão innofensivo, tão insignificante, com o seu ar bochechudo, e molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe o braço, teve duas palavras amaveis.
- Damaso, tu não me comprehendeste. Eu não te quiz fazer zangar... É para teu bem... O que eu receava é que tu, imprudente, arrebatado, apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscríção...
E o outro ficou logo contente, sorrindo já, abandonando-se ao braço do seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante chic. Não, elle não se tinha zangado, nunca se zangava com os intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade...
- Mas tu, ás vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu bocadinho de espirito...
E então tranquillisou-o. Não, por imprudencia não havia elle de «perder a cousa». Aquillo ia com todas as regras. Lá n'isso sobrava-lhe experiencia. A Melanie já a tinha na mão; já lhe dera duas libras.
- Isto de mais a mais é uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio, é intima d'elle desde pequena, tratam-se até por tu...
- Que tio?
- Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimarães. Mr. de Guimaran, o que vive em Paris, o amigo de Gambetta...
- Ah sim, o communista...
- Qual communista, até tem carruagem!
Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria consultar Carlos.
- Ámanhã vou jantar com elles, e vão tambem dois brazileiros, amigos d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um é chic, é da Legação do Brazil em Londres. De maneira que é jantar de ceremonia. O Castro Gomes não me disse nada; mas que te parece, achas que vá de casaca?... - Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella.
O Damaso olhou-o, pensativo.
- A mim tinha-me lembrado o habito de Christo.
- O habito de Christo... Sim, põe o habito de Christo ao pescoço, e põe a rosa na botoeira. - Será talvez de mais, Carlos!
- Não, fica bem ao teu typo.
Damaso fizera parar o coupé que os tinha seguido a passo. E no ultimo aperto de mão a Carlos:
- Tu sempre vaes á noite, aos Cohens, de dominó? O meu fato de selvagem ficou divino. Eu venho mostral-o á noite á brazileira... Entro no Hotel embrulhado n'um capote, e appareço-lhes de repente na sala, de selvagem, de Nelusko, a cantar:
Alerta, marinari,
Il vento cangia...
Chic a valer!... Good bye!
Ás dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fóra, a noite fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette, errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto espelho-psyché alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o dominó de já setim negro com um grande laço azul-claro.
Baptista, com a casaca na mão, esperava que Carlos acabasse a chavena de chá preto que elle estava bebendo aos golos, de pé, em mangas de camisa, e de gravata branca.
De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e violento.
- Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje é o dia das surprezas...
Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir - quando em baixo vibrou outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.