Por Eça de Queirós (1878)
Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpresa! Era D. Felicidade.
- És tu! Como estás tu? Entra.
Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Saíra na véspera da Encarnação; o pé às vezes ainda lhe fazia mal; mas graças a Deus estava escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita!
Entraram no quarto. Escurecia. Luísa acendeu as velas.
- E como me achas tu, hem? - perguntou D. Felicidade, pondo-se diante dela.
- Um bocadito mais pálida.
Ai! Tinha sofrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado num sapato largo; obrigou Luísa a apalpá-lo... Que uma consolação lhe restava: é que toda a Lisboa a fora ver! Graças a Deus! Toda a Lisboa; o que há de melhor em Lisboa!
- E tu esta semana - acrescentou - nem apareceste! Pois olha que te cortaram na pele...
- Não pude, filha. O Jorge chega amanhã, sabias?
- Ah, sua brejeira! Viva! Está esse coraçãozinho aos pulos! - E disse-lhe um segredinho.
Riram muito.
- Pois eu - continuou D. Felicidade sentando-se - arranjei-te hoje a partida. Encontrei estamanhã o Conselheiro, que me disse que vinha. Encontrei-o aos Mártires! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que saí! E um bocado adiante dou com Julião; diz que também vinha!... - E com a voz desfalecida:
- Sabes? Tomava uma colherinha de doce...
Foi Luísa que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham encontrado na escada, dizendo-lhes a rir:
- Hoje sou eu o guarda-portão!
D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o espetáculo amado da pessoa de Acácio, começou, falando muito, a censurá-la por deixar assim sair no mesmo dia as duas criadas...
- E se te achares incomodada, filha; se te der alguma coisa?
Luísa riu. Não era afeta a fanicos...
Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:
- Tem continuado a sofrer dos dentes, D. Luísa?
Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia! - exclamou D. Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão perfeita.
O Conselheiro apressou-se a citar: - Em lábios de coral, pérolas finas..." E acrescentou:
- É verdade, mas a última vez que tive a honra de estar com D. Luísa, viu-se tão repentinamenteaflita com um dente, que teve de ir a correr chumbá-lo ao Vitry.
Luísa fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a Joana; ia abrir...
- É verdade - continuou o Conselheiro - tínhamos feito um delicioso passeio, quando de repenteD. Luísa empalidece, e parece que a dor era tão urgente que se precipitou para a escada do dentista, como louca...
A propósito de dores, D. Felicidade, que estava ansiosa por interessar, comover o Conselheiro, começou a história do seu pé: disse a queda, o milagre de não ter morrido, as visitas assíduas de condessas e viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom Dr. Caminha...
- Ai! Sofri muito! - suspirou, com os olhos no Conselheiro, para provocar uma palavra simpática.
Acácio, então, disse com autoridade:
- É sempre um erro, ao descer uma escada íngreme, não procurar o apoio do corrimão.
- Mas podia ter morrido! - exclamou ela. E voltando-se para Julião: - Pois não é verdade?
- Neste mundo morre-se por qualquer coisa - disse ele enterrado numa poltrona, fumandovoluptuosamente. Ele mesmo estivera naquela tarde para ser atropelado por um trem; destinara o domingo para se dar um feriado, e fizera um grande passeio pela circunvalação... - Há mais de um mês vivo no meu cubículo, como um frade beneditino na livraria do seu convento! acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza do cigarro sobre o tapete.
O Conselheiro quis saber então o assunto da tese: decerto muito momentoso!... E apenas Julião lhe disse: Sobre Fisiologia, Sr. Conselheiro", Acácio observou logo, com uma voz profunda:
- Ah! Fisiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais ao estilo ameno.
Queixou-se, também, de vergar ao peso dos seus trabalhos literários...
- Esperemos todavia, Sr. Zuzarte, que não sejam infrutíferas as nossas vigílias!
- As suas, Sr. Conselheiro, as suas! - E com interesse: - Quando nos dá o seu novo trabalho?Há sofreguidão em o ver!
- Há alguma sofreguidão - concordou o Conselheiro com seriedade. Há dias me dizia o senhorministro da Justiça (esse robustíssimo talento), há dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu livro, Acácio, estamos precisados de luz, de muita luz!" Foi assim que ele disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: "senhor ministro, não serei eu que a negue ao meu pais, quando o meu país a necessitar!"
- Muito bem, muito bem, Conselheiro!
- E - acrescentou - dir-lhes-ei aqui em família, que o nosso ministro do reino me deixou entrevernum futuro não remoto, a comenda de São Tiago!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.