Por Eça de Queirós (1887)
- Essa léria não pega, senhor! - gritou ele, com as veias a estalar de cólera na fronte esbraseada. - Foi Vossa Senhoria que estragou o comércio!... Está o mercado abarrotado, já não há maneira de vender nem um cueirinho do Menino Jesus, uma relíquia que se vendia tão bem! O seu negócio com as ferraduras é perfeitamente indecente... Perfeitamente indecente! É o que me dizia noutro dia um capelão, primo meu: "São ferraduras de mais ara um país tão pequeno!..." Quatorze ferraduras, senhor! É abusar! Sabe Vossa Senhoria quantos pregos, dos que pregaram Cristo na cruz, Vossa Senhoria tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, senhor!... Não lhe digo mais nada... Setenta e cinco!
E saiu, atirando a porta com furor, deixando-me aniquilado.
Venturosamente, nessa noite, encontrei o Rinchão em casa da Benta Bexigosa, e recebi dele uma considerável encomenda de relíquias. O Rinchão ia desposar uma menina Nogueira, filha da Senhora Nogueira, rica beata de Beja e rica proprietária de porcos; e ele "queria dar um presente catita à carola da velha, tudo cousinhas da cartilha e do Santo Sepulcro". Arranjei-lhe um lindo cofre de relíquias (aí coloquei o meu septuagésimo sexto prego), ornado das minhas graciosas flores secas de Galiléia. Com a generosa pecúnia que me deu o Rinchão, paguei à Pomba de Ouro; e tomei prudentemente um quarto na casa de hóspedes do Pita, à Travessa da Palha.
Assim diminuía a minha prosperidade. O meu quarto agora era nos altos, no quinto andar, com um catre de ferro, e uma poltrona vetusta cujo miolo de estopa fétida rompia entre a chita esgarçada. Como único ornato pendia sobre a cômoda, num caixilho enfeitado de borlas, uma litografia de Cristo crucificado, a cores; nuvens negras de tormenta rolavam-lhe aos pés; e os seus olhos claros, arregalados, seguiam e miravam todos os meus atos, os mais ínfimos, mesmo o delicado aparar dos calos.
Havia uma semana que, assim instalado, farejava Lisboa à busca do pão incerto, com botas a que se começava a romper a sola, quando uma manhã o André da Pomba de Ouro me trouxe uma carta que lá fora deixada na véspera, com a marca "urgente". O papel linha tarja preta; o sinete era de lacre negro. Abri, tremendo. E vi a assinatura do Justino.
"Meu querido amigo. E meu penoso dever, que cumpro com lágrimas, participar-lhe que sua respeitável tia e minha senhora inesperadamente sucumbiu..."
Caramba! A velha rebentara!
Ansiosamente saltei através das linhas, tropeçando sobre os detalhes - "congestão dos pulmões... Sacramentos recebidos... Todos a chorar... O nosso Negrão!..." E empalidecendo, num suor que me alagava, avistei, ao fim da lauda, a nova medonha; "do testamento da virtuosa senhora, consta que deixa a seu sobrinho Teodorico o óculo que se acha pendurado na sala de jantar..."
Deserdado!
Agarrei o chapéu, corri aos encontrões pelas ruas até ao cartório do Justino, a São Paulo. Achei-o à banca, com uma gravata de luto e a pena atrás da orelha, comendo fatias de vitela sobre um velho Diário de Notícias.
- Com que, o óculo?... - balbuciei, esfalfado, arrimado à esquina de uma estante.
- É verdade. O óculo! - murmurou ele, com a boca atulhada.
Fui tombar, quase desmaiado, sobre o canapé de couro. Ele ofereceu-me vinho de Bucelas. Bebi um cálice. E passando a mão trêmula sobre a face lívida:
- Então dize lá, conta lá tudo, Justininho...
O Justino suspirou. A santa senhora, coitadinha, deixara-lhe duas inscrições de conto... E, de resto, dispersara no seu testamento as riquezas de G. Godinho, do modo mais incoerente e mais perverso. O prédio do Campo de Santana e quarenta contos de inscrições, para o Senhor dos Passos da Graça. As ações da Companhia do Gás, as melhores pratas, a casa de Linda-aPastora para o Casimiro, que já se não mexia, moribundo. Padre Pinheiro recebia um prédio na Rua do Arsenal. A deliciosa quinta do Mosteiro, com o seu pitoresco portão de entrada, onde se viam ainda as armas dos condes de Lindoso, as inscrições de Crédito Público, a mobília do Campo de Santana, o Cristo de ouro - para o Padre Negrão. Três contos de réis e o relógio, para o Margaride. A Vicência tivera as roupas de cama. Eu - o óculo!
- Para ver o resto de longe! - considerou filosoficamente o Justino, dando estalinhos nos dedos.
Recolhi à Travessa da Palha. E durante horas, em chinelas, com os olhos chamejantes, revolvi o desejo desesperado de ultrajar o cadáver da Titi - cuspindo-lhe sobre o carão lívido, esfuracando, com uma bengala, a podridão do seu ventre. Chamei contra ela todas as cóleras da natureza. Pedi às árvores que recusassem sombra à sua sepultura! Pedi aos ventos que sobre ela soprassem todos os lixos da terra! Invoquei o demônio: "Dou-te a minha alma se torturares incansavelmente a velha!" Gritei com os braços para as alturas: "Deus, se tens um céu, escorraça-a de lá!" Planejei quebrar a pedradas o mausoléu que lhe erguessem... E decidi escrever comunicados nos jornais, contando que ela se prostituía a um galego, todas as tardes, no sótão, de óculos negros e em fralda!
Esfalfado de a odiar - adormeci densamente.
Foi o Pita que me acordou, ao anoitecer, entrando com um longo embrulho. Era o óculo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.