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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braços, não cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em quando, sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãosinha. Os olhos da mãe eram negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: quem herdara ella aquellas maravilhosas pupillas d'um azul tão rico, liquido e doce.

Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante. Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella installação banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia

delicada revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lençoes não eram do hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas bordados a duas côres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de Tarnah disfarçava o medonho reps desbotado.

Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns livros de encadernações ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava ali, estranhamente, uma brochura singular - o Manual de interpretação dos sonhos. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro objecto estravagante, uma enorme caixa de pó de arroz, toda de prata dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma dissonancia audaz de explendor brutal.

Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um botão de rosa; elle não ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da mãe, e tocou-lhe apenas na testa.

- Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do casaco.

- Não é necessario vir outra vez, minha querida. Tu estás boa, e Cri-cri tambem.

- Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu lunch... E Cri-cri tambem.

- Sim já podeis ambas petiscar alguma cousa...

Fez as suas recommendações á mestra, e depois, apertando a mãosinba da pequena:

- E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que és Rosicler...

E não quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um shake-hands.

Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com duas covinhas na face.

Não era necessario, lembrou Carlos, conservar a creança na cama, nem tortural-a com cautellas exageradas...

- Oh, nò, sir!

E se a dôr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar...

- Oh yes, sir!

E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.

- Oh thank you, sir!

Ao voltar á sala, o Damaso saltou do sophá, onde percorria um jornal, como uma féra a quem se abre a jaula.

- Credo, imaginei que ias lá ficar toda a vida! Que estivestes tu a fazer? Irra, que estopada! Carlos, calçando as luvas, sorria, sem responder.

- Então, é cousa de cuidado?

- Não tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario.

- Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapéo com mau modo; muito ridiculo, não é verdade?

A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da sala, - dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo logo com o medico; e que havia de voltar á noite para lhes fazer uma surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz - si ils avaient aimè Queluz.

Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabeça, para dizer ao guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego. O guarda livros sorrio e cortejou.

- Queres que te vá levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo, abrindo a porta do coupé, ainda com um resto de mau humor.

Carlos preferia ir a pé.

- E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora não tens que fazer.

Damaso hesitou, olhando o céu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas Carlos tomara-lhe o braço, arrastava-o, amavel e gracejando.

- Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o romance... Tu disseste que tinhas um romance.

Não te largo. És meu. Venha o romance. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o romance!

Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de satisfação.

- Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia.

- Vocês estiveram em Cintra?...

- Estivemos, mas isso não foi divertido... O romance é outro!

Desprendeu-se do braço de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os seguisse, e regalou-se pelo Aterro fóra de contar o seu romance.

(continua...)

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