Por Aluísio Azevedo (1881)
— Bonito! Ana Rosa! Então que é isto, minha filha?.. gritava Manuel, procurando conter lhe os movimentos crônicos. D. Maria Bárbara! Brígida! Mônica!
O quarto encheu-se. Escancararam-se a porta e as janelas; vieram os sais e o algodão queimado. Mas, só depois de grandes lutas, a histérica quebrou de forças e pôs-se a soluçar, extenuada e arquejante. Manuel, todo aflito, não sossegava, de um para outro lado, na ponta dos pés, falando em voz discreta, indo de vez em quando ao corredor corredor se o cônego já tinha chegado, e voltando sempre a coçar a nuca, o que nele indicava extrema perplexidade.
— Vossemecê já quer almoçar? perguntou-lhe a Brígida, — Vai para o diabo!
O cônego chegou afina, ao meio-dia, com um ar muito tranqüilo de boa digestão; o palito ao canto da boca
— Então?... informou-se ele de Manuel, levando-o misteriosamente para um canto da varanda.
— Foi o diabo... seu compadre! A pequena, logo que ouviu a peta, caiu-me com um ataque; e agora o verás! gritou e estrebuchou por um ror de tempo, até que lhe vieram os soluços! Um inferno!
— E agora? Como está ela?
— Mais sossegadinha, porém suponho que vai ter febre... Eu não quis chamar o medico, sem falar primeiro com você... — Fez bem.
E o cônego recolheu-se a meditar.
— Com os demos!... resmungou por fim. A coisa estava muito mais adiantada do que eu fazia...
— E agora?
— Agora, é dizer-lhe a verdade!... O que eu queria era saber em que pé estava a questão... Ela se supõe traída e, para supor tal, é preciso que tenha concertado algum plano com o melro... E eis justamente o que convém destruir quanto antes!...
E, depois de uma pausa:
— Aquela indiferença pela retirada de Raimundo era devida à certeza do contrário...
Calou-se e perguntou daí a um instante:
— Ela acreditou logo no que você disse?
— Logo, logo! gritou: “Miserável!” e zás! caiu com o ataque!
— E singular...
— O quê?
— Ter acreditado tão facilmente... mas, enfim... conte-se-lhe a verdade!. ..
— Então, espere um instantinho, que...
— Não senhor, venha cá, compadre, vou eu; a mim talvez que a pequena diga tudo com mais franqueza.
E, inspirado por uma idéia, voltou-se para Manuel:
— Olhe! você, o melhor é fingir que não sabe de coisa alguma...
compreende?
— Como assim?
— Não se dê por achado... finja que estás deveras persuadido da partida de Raimundo.
— Para quê?
— É cá uma coisa...
E o cônego, revestindo um ar consolador e respeitoso, entrou, com passos macios, no aposento de Ana Rosa.
A crise tinha cessado de todo; a doente soluçava baixinho, com o rosto escondido entre dois travesseiros. A boa Mônica, ajoelhada aos pés dela, vigiava-a com a docilidade de um cão. D. Maria Bárbara assentada perto da rede, exprobrava a neta, a meia voz, aquele mal cabido pesar por um fato que nada tinha de lamentável.
— Então, minha afilhada que e isso?... perguntou o padre, passando carinhosamente a mão pela cabeça da rapariga.
Ela não se voltou; continuava a chorar, inconsolável, assoando de espaço a espaço o narizinho, agora vermelho do esforço do pranto. Não podia falar, os soluços secos e muito suspirados, repetiam-se quase sem intervalo. Com um sinal o cônego afastou Mana Bárbara e Mônica, e, chegando os seus lábios finos ao ouvido da afilhada, derramou nele estas palavras, doces e untuosas, como se fossem ungidas de santo óleo:
— Tranqüilize-se... Ele não partiu... está aí... Sossegue...
— Como?
E Ana Rosa voltou-se logo.
— Não faça espalhafato... Convém que seu pai não saiba de coisa alguma...
— Descanse! sossegue! Raimundo não partiu, ficou!
— Vossemecê está me enganando dindinho!...
— Com que interesse, minha desconfiada? — Não sei mas...
E soluçou ainda.
— Está bom! não chore e onça o que lhe vou dizer: Saindo daqui, procuro o rapaz e faço-o ausentar-se por algum tempo, até que as coisas voltem de novo aos seus eixos; mais tarde ele se mostrará, e então nós trataremos de tudo pelo melhor... Nec semper lilia florent!...
— E papai?
— Deixe-o por minha conta! fie-se inteiramente em mim! Mas precisamos ter uma conferência completa, sozinhos, num lugar seguro, onde possamos falar à vontade. Para ajudá-los preciso pôr-me bem a par do que há! entregue-se pois às minhas mãos e verá que tudo se arranja com a divina proteção de Deus!... Nada de desesperos! nada de precipitações!... Calma, minha filha! sem calma nada se faz que preste!...
E, depois de uma meiguice: — Olhe, venha um dia à Sé, confessar-se comigo... Sua avó encomendou-me uma missa cantada. Não pode haver melhor ocasião... Confesso-a depois da missa. Está dito?
— Mas, para quê, dindinho?...
— Para quê?... é boa! para poder ajudá-la, minha afilhada!...
— Ora...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.