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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Muito manhoso, também não procurara os amigos da Titi - que deviam prudentemente partilhar as paixões da sua alma para lograrem os favores do seu testamento; assim poupava embaraços angustiosos a esses beneméritos da Magistratura e da Igreja. Sempre que encontrava Padre Pinheiro ou Doutor Margaride, cruzava as mãos dentro das mangas, baixava os olhos, evidencianlo humildade e compunção. E este retraimento era decerto grato aos amigos, porque uma noite, topando o Justino perto da casa da Benta Bexigosa, o digno homem segredou junto da minha barba, depois de se ter assegurado da solidão da rua.

- Ande-me assim, amiguinho!... Tudo se há de arranjar... Que ela por ora está uma fera... Oh diabo aí vem gente!

E abalou.

No entanto, por intermédio do Lino, eu vendilhava relíquias. Bem depressa, porém recordado dos compêndios de Economia Política, refleti, que os meus proventos engordariam se, eliminando o Lino, eu mesmo me dirigisse ousadamente ao consumidor pio.

Escrevi então a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Graça, cartas com listas e preços de relíquias. Mandei propostas de ossos de mártires a igrejas de província. Paguei copinhos de aguardente a sacristães, para que eles segredassem a velhas com achaques –“Para cousas de santidade não há como o senhor Doutor Raposo que vem fresquinho de Jerusalém!...” E bafejoume a sorte. A minha especialidade foi a água do Jordão, em frascos de zinco, lacrados e carimbados com um coração em chamas; vendi desta água para batizados, para comidas, para banhos; e durante um momento houve um outro Jordão, mais caudaloso e límpido que o da Palestina, correndo por Lisboa, com a sua nascente num quarto da Pomba de Ouro. Imaginativo, introduzi novidades rendosas e poéticas; lancei no comércio com eficácia "o pedacinho da bilha com que Nossa Senhora ia à fonte"; fui eu que acreditei na piedade nacional "uma das ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Família". Agora quando o Lino de chinelos batia à porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas do presépio alternavam com as palhas de tabuinhas de São José, eu entreabria uma fenda avara e ciciava:

- Foi-se... Esgotadinho!... Só para a semana... Vem-me aí um caixotinho da Terra Santa...

As veias frontais do capacíssimo homem inchavam, numa indignação de intermediário espoliado.

Todas as minhas relíquias eram acolhidas com o mais forte fervor - porque provinham "do Raposo, fresquinho de Jerusalém". Os outros reliquistas não tinham esta esplêndida garantia de uma jornada à Terra Santa. Só eu, Raposo, percorrera esse vastíssimo depósito de sanidade. Só eu de resto sabia lançar na folha sebácea de papel que autenticava a relíquia - a firma floreada do senhor Patriarca de Jerusalém.

Mas bem cedo reconheci que esta profusão de reliquilharia saturara a devoção do meu pais! Atochado, empanturrado de relíquias, este católico Portugal já não tinha capacidade - nem para receber um desses raminhos secos de flores de Nazaré, que eu cedia a cinco tostões!

Inquieto, baixei melancolicamente os preços. Prodigalizei, no Diário de Notícias, anúncios tentadores - "Preciosidades da Terra Santa, em conto, na tabacaria Rego, se diz..." Muitas manhãs, com um casacão eclesiástico e um cachenê de seda disfarçando a minha barba, assaltei à porta das igrejas velhas beatas; oferecia pedaços da túnica da Virgem Maria, cordéis das sandálias de São Pedro; e rosnava com ânsia, roçando-me pelos manteletes e pelas toucas: "Baratinhos, minha senhora, baratinhos... Excelentes para catarros!..."

Já devia uma carregada conta na Pomba de Ouro; descia as escadas sorrateiramente, para não encontrar o patrão; chamava com sabujice ao galego - "meu André, meu catitinha..."

E punha toda a minha esperança num renovamento da fé! A menor notícia de festa de igreja me regozijava como um acréscimo de devoção no povo. Odiava ferozmente os republicanos e os filósofos que abalam o catolicismo - e portanto diminuem o valor das relíquias que ele instituiu. Escrevi artigos para a Nação, em que bradava: "Se vos não apegais aos ossos dos mártires, como quereis que prospere este país?" No café do Montanha dava murros sobre mesas: "E necessário religião, caramba! Sem religião nem o bifezinho sabe!" Em casa da Benta Bexigosa ameaçava as raparigas, se elas não usassem os seus bentinhos e os seus escapulários, de não voltar ali, de ir à casa da D. Adelaide!... A minha inquietação pelo “pão de cada dia” foi mesmo tão áspera, que de novo solicitei a intervenção do Lino - homem de vastas relações eclesiásticas, parente de capelães de convento. Outra vez lhe mostrei o meu leito juncado de relíquias. Outra vez lhe disse, esfregando as mãos: “Vamos a mais negócio, amiguinho! Aqui tenho sortimento fresco, chegadinho de Sião!”

Mas, do digno homem da Câmara Patriarcal, só recolhi recriminações acerbas...

(continua...)

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