Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Em qualquer parte dos matos da Bahia se acham muitos cágados, que se criam pelos pés das árvores, sem irem à água, a que os índios chamam jabuti; há uns que são muito maiores que os da Espanha, mais altos e de mais carne, e têm as conchas lavradas em compartimentos oitavados de muito notável feitio; os lavores dos compartimentos são pretos, e o meio de cada um é branco e alme-cegado. Estes cágados têm as mãos, pés, pernas, pescoço e cabeça, cheios de verrugas tamanhas, como chícharros, muito vermelhas, e agudas nas pontas; estes põem infinidade de ovos, de que nascem em terra úmida, onde criam debaixo do arvoredo; mantêm-se de frutas, que caem pelo chão; e metidos em casa comem tudo quanto acham pelo chão; cuja carne é muito gorda, saborosa e sadia para doentes.Há outros cágados, que também se criam no mato, sem irem à água, a que os índios chamam jabutiapeba; os quais têm os mesmos lavores nas conchas, mas são muito amassados, e têm as costas muito chãs, e não têm verrugas; têm pouca carne e mui saborosa; criam e mantêm-se pela ordem dos de cima.Há outras castas de cágados da feição dos da Espanha, a que os índios chamam jabuti-mirim, que se criam e andam sempre na água, que também são mui saborosos e medicinais; e dos que se criam na água há muitas castas de diversas feições, que têm as mesmas manhas, e natureza, mas mui diferentes na grandura. E pareceu-me decente arrumar neste capítulo os cágados por serem animais que se criam na terra, e se mantêm de frutas dela.
C A P Í T U L O CVII
Em que se declara que bicho é o que se chama preguiça.
Nestes matos se cria um animal mui estranho, a que os índios chamam aí, e os portugueses preguiça, nome certo mui acomodado a este animal, pois não há fome, calma, frio, água, fogo, nem outro nenhum perigo que veja diante, que o faça mover uma hora mais que outra; o qual é felpudo como cão dágua, e do mesmo tamanho; e tem a cor cinzenta, os braços e pernas grandes, com pouca carne, e muita lã; tem as unhas como cão e muito voltadas; a cabeça como gato, mas coberta de gadelhas que lhe cobrem os olhos; os dentes como gato. As fêmeas parem uma só criança, e trá-la, desde que a pare, ao pescoço dependurado pelas mãos, até que é criada e pode andar por si; e parem em cima das árvores, de cujas folhas se mantêm, e não se descem nunca ao chão, nem bebem; e são estes animais tão vagarosos que posto um ao pé de uma árvore, não chega ao meio dela desde pela manhã até as vésperas, ainda que esteja morta de fome e sinta ladrar os cães que a querem tomar; e andando sempre, mas muda uma mão só muito devagar, e depois a outra, e faz espaço entre uma e outra, e da mesma maneira faz aos pés, e depois à cabeça; e tem sempre a barriga chegada à árvore, sem se pôr nunca sobre os pés e mãos e se não faz vento, por nenhum caso se move do lugar onde está encolhida até que o vento lhe chegue; os quais dão uns assobios, quando estão comendo de tarde em tarde, e não remetem nada, nem fazem resistência a quem quer pegar deles, mais que pega-rem-se com as unhas à árvore onde estão, com que fazem grande presa; e acontece muitas vezes tomarem os índios um destes animais, e levarem-no para casa, onde o têm quinze e vinte dias, sem comer coisa alguma, até que de piedade o tornam a largar; cuja carne não comem por terem nojo dela.
C A P Í T U L O CVIII
Que trata de outros animais diversos.
Nestes matos se cria um animal, a que os gentios chamam jupará, quer dizer "noite", que é do tamanho de um bugio, e anda de árvore em árvore, como bugio, por ser muito ligeiro; cria no côncavo das árvores, onde pare um só filho, e mantém-se dos frutos silvestres. Este animal tem a boca por dentro até as goelas, e língua tão negra, que faz espanto, pelo que lhe chamam noite, cuja carne os índios não comem, por terem nojo dela.Há outro bicho que no mato se cria a que chamam os índios coandu, que é do tamanho de um gato; não corre muito, por ser pesado no andar; cria no tronco das árvores, onde está metido de dia; e de noite sai da cova ou ninho a andar pela árvore, onde faz sua morada, a buscar uma casta de formigas que se cria nela, a que chamam cupim, de que se mantêm. Este bicho pare uma só criança, e tem a côr pardaça; o qual dorme todo o dia, e anda de noite. E no lugar onde pariu aí vive sempre, e os filhos, e toda a sua geração que dele procede; e não buscam outro lugar senão quando não cabem no primeiro.Cuim é outro bicho assim chamado dos índios, que é do tamanho de um láparo, tem os pés muito curtos, o rabo comprido, o focinho como doninha; e é todo cheio de cabelos brancos e tesos, e por entre o cabelo é todo cheio de espinhos até o rabo, cabeça, pés, os quais são tamanhos como alfinetes; com os quais se defende de quem lhe fizer mal, sacudindo-os de si com muita fúria, com o que fere os outros animais; os quais espinhos são amarelos, e têm as pontas pretas e mui agudas; e por onde estão pegados, no couro são farpados. Estes bichos correm pouco, criam debaixo do chão, onde parem uma só criança, e mantêm-se de minhocas e frutas, que acham pelo chão.Acham-se outros bichos pelo mato a que os índios chamam queiroá, que são, nem mais nem menos, como ouriços-cacheiros de Portugal, da mesma feição, e com os mesmos espinhos; e criam em covas debaixo do chão; mantêm-se de minhocas e de frutas que caem das árvores, cuja carne os índios não comem.
C A P Í T U L O CIX
Em que se declara a qualidade das cobras, lagartos e outros bichos.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.