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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- E Vossa Senhoria, se não é curiosidade, vem das provindas do norte?

Passei vagarosamente a mão pelos cabelos:

- Não, senhor... Venho de Jerusalém!

De assombrado o Senhor Uno perdeu a garfada de arroz. E depois de ter ruminado mudamente a sua emoção, confessou que lhe interessavam muito todos esses lugares santos porque tinha religião, graças a Deus! E tinha um emprego, graças também a Deus, na Câmara Patriarcal...

- Ah, na Câmara Patriarcal! - acudi eu. - Sim, muito respeitável... Eu conheci muito um patriarca... Conheci muito o senhor Patriarca de Jerusalém. Cavalheiro muito santo, muito catita... Até nos ficamos tratando de tu!

O Senhor Lino ofereceu-me da sua água de Vidago - e conversamos das terras da Escritura.

- Que tal Jerusalém, como lojas?...

- Como lojas?... Lojas de modas?

- Não, não! - atalhou o Senhor Lino. Quero dizer lojas de santidade, de reliquiarias, de cousinhas divinas...

- Sim... Menos mau. Há o Damiani na Via-Dolorosa que tem tudo, até ossos de mártires... Mas o melhor é cada um esquadrinhar, escavar... Eu nessas cousas trouxe maravilhas!

Uma chama de singular cobiça avivou as pupilas amareladas do Senhor Lino, da Câmara Patriarcal. E de repente, com uma decisão de inspirado:

- Andrezinho, a pinguinha de Porto... Hoje é bródio!

Quando o galego pousou a garrafa, com a sua data traçada à mão num velho rótulo de papel almaço - o Senhor Lio ofertou-me um cálice cheio.

- A sua!

- Com a ajuda do Senhor!... À sua!

Por cortesia, rilhado o queijo, convidei aquele homem que graças a Deus tinha religião, a entrar no meu quarto e admirar as fotografias de Jerusalém. Ele aceitou, com alvoroço; mas, apenas transpôs a porta, correu sem etiqueta e gulosamente ao meu leito - onde jaziam espalhadas algumas das relíquias que eu desencaixotara essa manhã.

- O cavalheiro aprecia? - indaguei, desenrolando uma vista do Monte Olivete, e pensando em lhe ofertar um rosário.

Ele revirava em silêncio, nas mãos gordas e de unhas roídas, um frasco de água do Jordão. Cheirou-o, pesou-o, chocalhou-o. Depois, muito sério, com as veias entumecidas na vastíssima fronte:

- Tem atestado?

Estendi-lhe a certidão do frade franciscano, garantindo como autêntica e sem mistura a água do rio batismal. Ele saboreou o venerando papel. E entusiasmado:

- Dou quinze tostões pelo frasquinho!

Foi, no meu intelecto de bacharel, como se uma janela se abrisse e por ela entrasse o sol! Vi inesperadamente, ao seu clarão forte, a natureza real dessas medalhas, bentinhos, águas, lascas, pedrinhas, palhas, que eu considerara até então um lixo eclesiástico esquecido pela vassoura da filosofia! As relíquias eram valores! Tinham a qualidade onipotente de valores! Dava-se um caco de barro - e recebia-se uma rodela de ouro!... E, iluminado, comecei insensivelmente a sorrir, com as mãos encostadas à mesa como um balcão de armazém:

- Quinze tostões por água pura do Jordão! Boa! Em pouca conta tem Vossa Senhoria o nosso São

João Batista... Quinze tostões! Chega a ser impiedade!... Vossa Senhoria imagina que a água do Jordão é como a água do Arsenal? Ora essa!... Três mil-réis recusei eu a um padre de Santa Justa, esta manhã, aí, ao pé dessa cama...

Ele fez saltar o frasco na palma gorda, considerou, calculou:

- Dou quatro mil-réis.

Vá lá, por sermos companheiros na Pomba!

E quando o Senhor Lino saiu do meu quarto, com o frasco do Jordão embrulhado na Nação, eu,

Teodorico Raposo, achava-me fatalmente, providencialmente, estabelecido vendilhão de relíquias!

Delas comi; delas fumei; delas amei, durante dous meses, quieto e aprazido na Pomba de Ouro. Quase sempre o Senhor Lino surdia de manhã no meu quarto, de chinelos, escolhia um caco do cântaro da Virgem ou uma palhinha do presépio, empacotava na Nação, largava a pecúnia e abalava assobiando o De Profundis. E evidentemente o digno homem revendia as minhas preciosidades com gordo provento - porque bem depressa, sobre o seu colete de veludo preto, rebrilhou uma corrente de ouro.

No entanto, muito hábil e fino, eu não tentara (nem com súplicas, nem com explicações, nem com patrocínios) amansar as beatas iras da Titi e repenetrar na sua estima. Contentava-me em ir à Igreja de Santana, todo de negro, com um ripanço. Não encontrava a Titi, que tinha agora de manhã no oratório missa do torpíssimo Negrão. Mas lá me prostrava, batendo contritamente no peito suspirando para o sacrário - certo que, pelo Melchior, sacristão, as novas da minha devoção inalterável chegariam à hedionda senhora.

(continua...)

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