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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:

- Ó minha senhora! - disse muito ofendida. - Isto assim não pode continuar. A senhora pareceque tem medo de me ver, credo! Eu voltei para fazer o meu serviço como dantes... Verdade, verdade, naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometeu... E lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas o que se passou foi um repente de gênio, e já pedi perdão à senhora. Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio, e -, acrescentou com uma voz seca - talvez seja pior para todos!...

Luísa, muito perturbada, balbuciou:

- Mas...

- Não, minha senhora - cortou Juliana severamente - aqui a criada sou eu.

E saiu, empertigada.

Tanta audácia aterrou Luísa. Aquela ladra era capaz de tudo!

Então, para a não irritar começou, daí por diante, a chamá-la, a dizer: -"traga isto, traga aquilo" sem a olhar.

Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luísa pouco a pouco, dia a dia, com o seu caráter móbil, inconsciente, cheio de deixar-se ir, principiou a perder o sentimento pungente daquela dificuldade. E no fim de três semanas as coisas tinham entrado nos seus eixos - dizia Juliana.

Luísa já gritava por ela do quarto, já a mandava a recados fora; Juliana chegava a ter às vezes migalhas de conversação: - Está um calor de morrer... A lavadeira tarda... - Um dia arriscou esta frase mais intima: - Encontrei a criada da senhora D. Leopoldina.

Luísa perguntou:

- Ainda está para o Porto?

- Ainda se demora um mês, minha senhora...

De resto havia na casa um aspecto muito tranqüilo, e Luísa, depois de tantas agitações, abandonava-se com gozo à satisfação daquele descanso. Ia às vezes ver D. Felicidade à Encarnação, que já se levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciência, quase contente por ver adiado o momento terrível de lhe dizer: "Escrevi a um homem, Sebastião!" Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.

Uma tarde Luísa ficara mais tempo à janela da sala de jantar; deixara cair o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que de algum quintal vizinho viera pousar sobre o tabique de terreno vago. Pensava vagamente em Basílio, no Paraíso... Sentiu passos; era Juliana.

- Que é?

A mulher cerrara a porta, e vindo junto dela, baixo:

- Então a senhora ainda não decidiu nada?

Luísa sentiu como uma pancada no estômago.

- Ainda não pude arranjar nada...

Juliana esteve um momento a olhar para o chão:

- Bem - murmurou, por fim.

E Luísa ouviu-a, no corredor, dizer alto:

- Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas!

Quando Jorge voltasse! Imediatamente no seu espírito, que se tinha pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angústias estremeceram de novo àquela ameaça - assim uma rajada súbita põe em convulsão um arvoredo. Devia, pois, fazer alguma coisa antes que ele chegasse! Justamente Jorge escrevera-lhe, que não se demoraria, que a avisaria pelo telégrafo... Desejava, agora, que do ministério o mandassem fazer uma viagem mais longe, pela Espanha ou pela África; que alguma catástrofe, sem lhe fazer mal, o retardasse meses!...

Que faria ele, se soubesse? Matá-la-ia? Lembravam-lhe as suas palavras muito sérias, naquela noite, quando Ernestinho contara o final do seu drama... Metê-la-ia numa carruagem, levá-la-ia a um convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruído funerário de ferrolhos, olhos lúgubres estudá-la curiosamente...

O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéia nítida de seu marido; imaginava um outro Jorge sanguinário e vingativo, esquecendo o seu caráter bom, tão pouco melodramático. Um dia foi ao escritório, tomou a caixa das pistolas, fechou-a num baú de roupa velha, e escondeu a chave!...

Uma idéia amparava-a: era que apenas Sebastião viesse de Almada, estava salva; e apesar daquela agonia miúda de todos os momentos, quase receava saber que ele tivesse chegado tanto a confissão da verdade lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio uma lembrança - escrever a Basílio. O terror permanente amolecera-lhe o orgulho, como a lenta infiltração da água faz a uma parede; e todos os dias começou a achar uma razão, mais uma, para se dirigir "àquele infame": fora seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu único parente... E não teria de "dizer" a Sebastião! Já às vezes pensara que não aceitar dinheiro de Basílio fora uma "fanfarronada bem tola!" Um dia enfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco confusa, pedia-lhe seiscentos mil réis. Foi ela mesmo levá-la ao correio, sobrecarregando-a de estampilhas.

Nessa tarde, por acaso, Sebastião, que chegara de Almada, veio vê-la. Recebeu-o com alegria, feliz por não ter de lhe contar..

(continua...)

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