Por Eça de Queirós (1888)
- Quem o não é? E resta saber por fim se o estylo não é uma disciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o esforço para completar bem a cadencia de uma phrase, não poderá trazer desenvolvimentos novos e inesperados de uma idéa... Viva a bella phrase!
- O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando começava justamente a tocar a sineta do almoço.
- Fallae na phrase... - disse Affonso, rindo.
- Hein? Que phrase? O que?... - exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como está v. ex.ª? Dize-me cá, Carlos, tu é que me podes tirar d'uma atrapalhação... Tu terás por acaso uma espada que me sirva? E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, já impaciente:
- Sim, homem, uma espada! Não é para me batter, estou em paz com toda a humanidade... É para esta noute, para o fato de mascara.
O Mattos, aquelle animal, só na vespera lhe dera o costume para o baile: e, qual é o seu horror, ao vêr que lhe arranjara, em logar de uma espada artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar atravez das entranhas. Correu ao tio Abrahão, que só tinha espadins de côrte, reles e pelintras como a propria côrte! Lembrara-se do Craft e da sua collecção; vinha de lá; mas ahi eram uns espadões de ferro, catanas pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a India... Nada que lhe servisse. Fôra então que lhe tinham vindo á idéa as panóplias antigas do Ramalhete.
- Tu é que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos em concha, d'aço rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz, sobretudo sem cruz!
Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas hespanholas...
- Em cima, no corredor? exclamou Ega, já com a mão no reposteiro.
Inutil precipitar-se, o bom John não as poderia encontrar. Não estavam á vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixões em que tinham vindo de Bemfica.
- Eu lá vou, homem fatal, eu lá vou, disse Carlos, erguendo-se com resignação. Mas olha que ellas não têem bainhas.
Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma idéa, o salvou.
- Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate...
- Explendido, gritou Ega: o que é ter gosto!
E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos.
- Veja v. ex.ª isto, um sabre da guarda municipal! E é quem faz ahi os fatos para todos os theatros! Que idiota!... E é tudo assim, isto é um paiz insensato!...
- Meu bom Ega, tu não queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado, sete milhões d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos?
- Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as mãos enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O costumier com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as Meditações de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema...
Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mão, uma folha do seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado como uma renda - e tendo gravado no aço o nome illustre do espadeiro, Francisco Ruy de Toledo.
Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou á pressa o almoço que lhe ofereciam, deu dous vivos shake-hands, atirou o chapéu para a nuca, ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve:
- Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso é uma espada cá da casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... Vê como te serves d'ella!
Ao pé do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito do paletot o ferro, enrolado no Jornal do Commercio:
- Não a sacarei sem justiça, nem a embainharei sem honra. Au revoir!
- Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz é este John!... Pois vae-te arranjando filho, que já tocou a primeira vez para o almoço.
Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se vestir, quando em baixo, á entrada particular, o timbre electrico começou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na
ante-camara, o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E, sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no Ramalhete, exclamou, lançando os braços ao ar:
- Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me venhas ver um doente... Eu te explicarei... É aquella gente brazileira. Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino! Carlos erguera-se, pallido:
- É ella?
- Não, é a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos, veste-te, que a responsabilidade é minha!
- É um bébé, não é?
- Qual bébé!... É uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.