Por Eça de Queirós (1878)
Como se achava ela, Luísa, naquela situação? Nem sabia. As coisas tinham vindo tão bruscamente, com a precipitação furiosa de uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de raciocinar, de se defender; fora embrulhada; e ali estava, quase sem dar fé, na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! Se tivesse falado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, decerto, notas, ouro... Com que frenesi lho arremessaria,. a expulsaria, e a arca, e os trapos, e a cuia!... Jurou a si própria falar a Sebastião, dizer tudo! Iria mesmo à casa dele, para o impressionar mais!
Daí a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera - e sonhava que um estranho pássaro negro lhe entrara no quarto, fazendo uma ventania, com as suas asas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao escritório, gritando: "Jorge!" Mas não via nem livros, nem estante, nem mesa; havia uma armação reles , de loja de tabaco, e por trás do balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bela mulher de formas robustas, em camisa de estopa, que perguntava com uma voz desfalecida de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão: - "Brejeiros ou de Xabregas?" - Fugia então de casa indignada, e, através de sucessos confusos, via-se ao lado de Basílio, numa rua sem fim, onde os palácios tinham fachadas de catedrais, e as carruagens rolavam ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Basílio a traição de Jorge. E Basílio, saltitando em volta dela com requebros de palhaço, repenicava uma viola, e cantava:
- Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar Se um coração ofendido
Tem obrigação de amar!
- Não tem! - gania a voz de Ernestinho, brandindo triunfante um rolo de papel. - E tudo seobscurecia de repente nos largos vôos circulares que fazia Juliana com as suas asas de morcego.
CAPÍTULO IX
Juliana voltara para casa de Luísa por conselhos da tia Vitória.
- Olha, minha rica - tinha-lhe ela dito -, não há que ver, o pássaro fugiu-nos! Suspira, bem podessuspirar que o dinheiro grosso foi-se! Quem podia adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso podes tirar daí o sentido! Que escusas de esperar nem cheta...
- Também me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Vitória!
A velha encolheu os ombros:
- Não lucras nada com isso. Ou que eles se desquitem, ou que ele lhe parta os ossos, ou que amande para um convento - tu não ganhas nada. E se se acomodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem tens a consolação de fazeres a cizânia. E isto é, se as coisas correrem pelo melhor, porque podes muito bem ficar mas é em lençóis de vinagre com alguma carga de pau que eles te mandem dar. - E vendo um gesto espantado de Juliana: - Já não era o primeiro caso, minha rica, já não era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita coisa, e nem tudo vem nos jornais!
Positivamente o que ela tinha a fazer era voltar para a casa. Por que enfim o que restava de tudo aquilo? O medo de D. Luísa; esse é que lá estava sempre a dar-lhe por dentro a cólica; desse é que era necessário tirar partido...
- Tu voltas para lá - dizia - à espera que ela cumpra o que prometeu. Se te dá o dinheiro, bem...Se não, tem-na em todo o caso na mão, estás de dentro da praça, sabes o que se passa, podes-lhe apanhar muita coisa...
Mas Juliana hesitava. - Era difícil viverem debaixo das mesmas telhas sem haver uma questão por dá cá aquela palha.
- Não te diz uma palavra, tu verás...
- Mas tenho medo...
- De quê? - exclamava a tia Vitória. Ela não era mulher para a envenenar, não é verdade?Então? Quem a nada se arriscava nada ganhava. - Isto é se queres - acrescentou - senão trata de te arranjar noutra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu vais ver, se não te convém, safas-te...
Juliana decidiu ir, a "ver".
E reconheceu logo, que aquela finória da tia Vitória tinha carradas de razão.
Luísa, com efeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, outra vez. Mas como estava decidida, apenas ele voltasse, a ir a casa dele uma manhã, atirar-se-lhe aos pés, contarlhe tudo, tudo, suportava Juliana, refletindo: -"E apenas por dias!" - Por isso não lhe disse uma palavra. Para quê? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pô-la fora, não é verdade? Enquanto o não pudesse fazer, era agüentar e calar. Até que Sebastião voltasse...
Entretanto evitava vê-la. Nunca a chamava. Não saía da alcova de manhã, sem a ter sentido fora no quarto encher o banho, sacudir os vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervalos não levantava os olhos das páginas. E durante todo o dia conservava0se no quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge - às vezes também em Basílio com ódio, desejando a volta de Sebastião, e preparando a sua história.
Juliana, uma manhã, encontrou Luísa no corredor trazendo para o quarto o regador cheio de água.
- Oh, minha senhora! Por que não chamou? - exclamou, quase escandalizada.
- Não tem dúvida - disse Luísa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.