Por Aluísio Azevedo (1881)
Depois, veio-lhe a reação; teve um apetite nervoso de gritar, morder, agatanhar. Pensou que ia ter um histérico; saiu da janela, para ficar mais à vontade; deu fortes pancadas frenéticas na cabeça. E sentia uma raiva mortal por tudo e por todos, pelos parentes, pela casa paterna, pela sociedade, pelas amigas, pelo padrinho; e assistiu-lhe, abrupto, uma força varonil, um animo estranho, um querer déspota; pensou com prazer numa responsabilidade; desejou a vida com todos os seus trabalhos, com todos os seus espinhos e com todos os seus encantos carnais; sentiu uma necessidade imperiosa, absoluta, de entender-se com Raimundo, de perdoar-lhe tudo com beijos ardentes, com carícias doidas, selvagens, agarrar-se a ele, rangindo os dentes, e dizer-lhe cara a cara: “Casa-te comigo! Seja lá como for! Não te importes com o resto! Aqui me tens! Anda! Faze de mim o que quiserem Sou toda tua! Dispõe do que é teu!”
Nisto, rodou uma carruagem na Rua da Estrela.
Ana Rosa correu à janela, assustada, palpitante. O carro parou à porta de Manuel; a moça estremeceu de medo e de esperança, e, toda excitada, convulsa, doida, viu saltar Raimundo.
— Suba! suba pra cá! disse-lhe ela, já no corredor. Suba por amor de Deus!
Raimundo sentiu as mãos frias da moça prenderem as suas. Gaguejou.
— Seu pai? Não quis partir, sem...
— Entre, entre para cá. Venha! Preciso falar-lhe.
E Ana Rosa puxou-o violentamente. O rapaz deixou-se arrastar; supunha encontrar-se com Manuel.
— Mas... balbuciava ele confuso, reparando, todo trêmulo, que entrava no gabinete de sua prima. Perdão, minha senhora, porém seu pai onde está?... Vinha pedir-lhe as suas ordene...
Ana Rosa correu à porta, fechou-a bruscamente, e atirou-se ao pescoço de Raimundo.
— Não partirás, ouviste? Não hás de partir!
— Mas...
— Não quero! Disseste que me amas e eu serei tua esposa, haja o que houver!
—Ah! se fosse possível!...
— E por que não? Que tenho eu com o preconceito dos outros? que culpa tenho eu de te amar? Só posso ser tua mulher, de ninguém mais! Quem mandou a papai não atender ao teu pedido? Tenho culpa de que não te compreendam? Tenho culpa de que minha felicidade dependa só de ti? Ou, quem sabe, Raimundo, se és um impostor e nunca sentiste nada por mim?...
— Antes assim fosse, juro-te que o desejava! Mas supões que eu seria capaz porventura de sacrificar-te ao meu amor? que eu seria capaz de condenar-te ao ódio de teu pai, ao desprezo dos teus amigos e aos comentários ridículos desta província estúpida?... Não! deixa-me ir, ridículos desta província estúpida?... Não! deixa-me ir, Ana Rosa! É muito melhor que eu vá!... E tu, minha estrela querida, fica, fica tranqüila ao lado de tua família; segue o teu caminho honesto; és virtuosa serás a casta mulher de um branco que te mereça... Não penses mais em mim. Adeus.
E Raimundo procurava arrancar-se das mãos de Ana Rosa. Ela prendeu-se-lhe ao pescoço, e, com a cabeça derreada para trás, os cabelos soltos e dependurados, perguntou-lhe, cravando-lhe de perto o olhar:
— O que há de sincero na tua carta?
— Tudo, meu amor, mas por que a leste antes de eu ter partido?
Então, sou tua! Olha, saiamos daqui! já! fujamos! Leva-me para onde quiseres! Fazer de mim o que entenderes!
E deixou cair o rosto sobre o peito dele, e abraçou -o estreitamente
Raimundo estava imóvel, medroso de sucumbir, entalado numa profunda comoção.
— Decide! exigiu ela, soltando-o.
Ele não respondeu. Ofegava.
— Pois olha, se não quiseres fugir, farei acreditar a meu pai que és um infame! Tens medo, não é verdade? Um pois bem, eu lhe direi tudo que me vier à cabeça chamarei sobre ti todo o ódio e toda a responsabilidade, meu amor! porque tu és um homem mau, Raimundo, e meu pai acreditara facilmente que abusaste da hospitalidade que ele te deu. És um miserável. Sai daqui.
Raimundo precipitou-se contra a porta. Ana Rosa atirou-se-lhe de novo ao pescoço soluçando.
— Perdoa meu amor! eu não, sei o que estou dizendo! Desculpa-me tudo isto, meu querido, meu senhor! Reconheço que és o melhor dos homens mas não partas, eu te suplico pelo que mais amas! Sei ,que é o teu orgulho que me faz mau; tens toda razão, mas não me abandoes! Eu morreria, Raimundo, porque te amo muito, muito! e nós mulheres, não temos como tu tens, outras ambições além do amor da pessoa que idolatramos! Bem vês! Eu sacrifico tudo por ti; mas não partas, tem piedade! Sacrifica também alguma coisa por mim! não sejas egoísta! não fujas! É o orgulho! mas que nos importa os outros, procuro agradar! Anda! Leva-me contigo! Eu desprezarei tudo; mas preciso ser tua, Raimundo, preciso pertencer-te exclusivamente.
E Ana Rosa caiu de joelhos, sem se desgarrar do corpo dele.
— É uma escrava que chora a teus pés! é uma desgraçada que precisa de tua compaixão! Sou tua! aqui me tens, meu senhor, ama-me! Não me abandones!
E soluçou, empalmado o rosto com as mãos. Raimundo, procurando erguê-la, vergava-se todo sobre ela. E o contato sensual daquela carne branca dos braços e do colo da rapariga, e o sarrafaçar daqueles lábios em brasa, e a proibição de tocar em todo aquele tesouro proibido, fustigavam-lhe o sangue e punham-lhe a cabeça a rodar, numa vertigem.
— Meu Deus! Ó Ana Rosa, não chores! Levanta-te pelo amor de Deus!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.