Por Franklin Távora (1878)
Teve então o rapaz a idéia de tomar uma vingança original. Com cordas do seu cavalo suspendeu por baixo dos braços o bandido ao alto da arvore. Ligou um pé ao outro, para que não tivesse meios de passar as pernas no tronco, e desprender os braços, que atou pelos pulsos na altura da cabeça da vitima, porém afastados. Enfim o todo figurava uma crucificação.
Planejava Lourenço queimar vivo o infeliz. Além de ser de seu natural mau, acabava de ver os males trazidos pela horda de que o malfeitor fazia parte, à inofensiva propriedade de pessoas de seu conhecimento e estima. Apanhara-o mesmo com o roubo na mão, praticado na casa a que mais se sentia preso por gratos elos dentre todas as casas das vizinhanças. Enfim, vinha da vila trazendo o coração repleto de fel e chama pelo que ai faziam desde a noite anterior os companheiros do malfeitor. Por tudo isso não hesitou em levar a efeito a abominável inspiração do seu ódio e da sua maldade. Quem o visse então, o acharia outro do que era. A brandura de coração, obra de Marcelina, tinha cedido o lugar, que não era ainda exclusiva propriedade sua, à paixão animal, que o acompanhava do berço. A educação pode muito, quando ajudada de muitas lições e exemplos e ao cabo de tempo bastante, converter, pelo processo que em fisiologia é ainda um mistério, o espinho original em rosa filha do artificio, da delicadeza e da perseverança.
Como tinha pressa, Lourenço deixara ai bem segura a sua presa, calculando sujeitá-la ao repugnante suplicio depois de vencidos os inimigos.
Agora, porém, casualmente erguendo as vistas ao crucificado, lembrara-lhe a crucificação, de que um momento o tinham feito esquecer-se os últimos acontecimentos.
Francisco aproximou-se do rapaz, bateu-lhe no ombro e perguntou-lhe a causa do seu enleio.
- Vosmecê não viu suspenso na gameleira do caminho o cabra que matou o porco de sinhá Joaquina? tornou ele.
- Vi, sim. Sabes quem era? Leonardo, sobrinho de Gonçalo Ferreira. Quem foi que lhe fez aquela crueldade?
Coitado! Por um pouquinho não morreu.
- Pois eu estava agora mesmo pensando em ir acabar de matar aquele ladrão, aquele assassino.
- Quem? Tu, Lourenço?
- Eu mesmo, sim senhor.
- Não digas isto. Estás já um homem e deves pensar melhor. Até onde quererás levar o teu mal natural? Mas então eu não devia ter feito o que fiz? o ladrão não botou portas abaixo, não pôs fogo nos canaviais e nas casas dos outros, não tirou o que não era seu?
- Fez tudo isso, mas tu não és juiz, não és Deus para julgar os homens.
Eu pensei – replicou o rapaz com ironia – que qualquer homem podia por suas mãos vingar-se de um malfazejo, matar um malvado que tivesse tirado a vida a muita gente. Estás enganado. Nem eu te quero para palmatória ou espada do mundo. Sabes o que fiz quando vi o pobre gemendo e esperneando, pendurado, sem saber o que fazer para soltar-se? subi-me ao pau, cortei as cordas e disse a Leonardo que corresse, que fugisse para não cair no poder dos soldados do ajudante-de-tenente. Foge dessas maldades, Lourenço, foge delas. Deus não há de permitir, por esta hora em que estou falando, que pratiques ainda ações como essa. Olha. Eu te quero para bom, e não para mau. Quero-te para servires de arrimo aos teus na velhice. Quero-te para casares com esta pobre menina, que hoje mais do que nunca precisa de quem olhe por ela, e que está morrendo de te querer bem.
E indicou a filha de Victorino.
Lourenço, que tivera os olhos postos no chão durante todo o tempo em que Francisco discorria com tão boa moral, levou-os à cova, a Marianinha, ao Crucificado, ao templo – morada de Deus, seja o templo católico, judaico, chinês ou árabe – e não disse nada.
Marianinha cruzou os dela, ainda rasos de lagrimas, com os do rapaz, e enrubesceu.
Mais corada não se mostra fresca rosa de maio, aljofrada pelo orvalho da madrugada.
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.