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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Porque saibam os meus amigos – anunciou ela com seu chatíssimo peito impando de satisfação – que o meu Teodorico trouxe-me uma santa relíquia, com que eu me vou apegar nas minhas aflições, e que me vai curar dos meus males!

- Bravíssimo! - gritou o impetuoso Doutor Margaride. - Com quê, Teodorico, seguiu-se o meu conselho? Esgaravataram-se esses sepulcros?... Bravíssimo! É de generoso romeiro!

- É de sobrinho, como já o não há no nosso Portugal! - acudiu o Padre Pinheiro junto ao espelho, onde estudava a língua saburrenta...

- É de filho, é de filho! - proclamava o Justino, alçado na ponta dos botins.

Então o Negrão, mostrando os dentes famintos, babujou esta cousa vilíssima:

- Resta saber, cavalheiros, de que relíquia se trata.

Tive sede, ardente sede do sangue daquele padre! Trespassei-o com dous olhares mais agudos e faiscantes do que espetos em brasa:

- Talvez Vossa Senhoria, se é um verdadeiro sacerdote, se atire de focinho para baixo a rezar, quando aparecer aquela maravilha!...

E voltei-me para a senhora Dona Patrocínio, com a impaciência de uma nobre alma ofendida que carece reparação:

- É já, Titi! Vamos ao oratório! Quero que fique tudo aqui assombrado! Foi o que disse o meu amigo alemão: "Essa relíquia, ao destapar-se, é de ficar uma família inteira azabumbada!..."

Deslumbrada, a Titi ergueu-se de mãos postas. Eu corri a prover-me de um martelo. Quando voltei, o Doutor Margaride, grave, calçava as suas luvas pretas... E atrás da senhora Dona Patrocínio, cujos cetins faziam no sobrado um ruge-ruge de vestes de prelado, penetramos no corredor onde o grande bico de gás silvava dentro do seu vidro fosco. Ao fundo a Vicência e a cozinheira espreitavam com os seus rosários na mão.

O oratório resplandecia. As velhas salvas de prata, batidas pelas chamas das velas de cera, punham no fundo do altar um brilho branco de glória. Sobre a candidez das rendas lavadas, entre a neve fresca das camélias - as túnicas dos santos, azuis e vermelhas, com o seu lustre de seda, pareciam novas, especialmente talhadas nos guarda-roupas do céu para aquela rara noite de festa... Por vezes o raio de uma auréola tremia, despedia um fulgor, como se na madeira das imagens corressem estremecimentos de júbilo. E na sua cruz de pau preto, o Cristo, riquíssimo, maciço, todo de ouro, suando ouro, sangrando ouro, reluzia preciosamente.

- Tudo com muito gosto! Que divina cena! - murmurou o Doutor Margaride, deliciado na sua paixão do grandioso.

Com piedosos cuidados coloquei o caixote na almofada de veludo; vergado, rosnei sobre ele uma Ave; depois, ergui a toalha que o cobria, e com ela no braço, tendo escarrado solenemente, falei:

- Titi, meus senhores... Eu não quis revelar ainda a relíquia que vem aqui no caixotinho, porque assim mo recomendou o senhor Patriarca de Jerusalém... Agora é que vou dizer... Mas antes de tudo, parece-me bem a pelo explicar que tudo cá nesta relíquia, papel, nastro, caixotinho, pregos, tudo é santo! Assim por exemplo os preguinhos... são da Arca de Noé... Pode ver, senhor Padre Negrão, pode apalpar! São os da Arca, até ainda enferrujados... E tudo do melhor, tudo a escorrer virtude! Além disso quero declarar diante de todos que esta relíquia pertence aqui à Titi, e que lha trago para lhe provar que em Jerusalém não pensei senão nela, e no que Nosso Senhor padeceu, e em lhe arranjar esta pechincha...

- Comigo te hás de ver sempre, filho! - tartamudeou a horrenda senhora, enlevada.

Beijei-lhe a mão, selando este pacto de que a Magistratura e a Igreja eram verídicas testemunhas. Depois, retomando o martelo:

E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as orações que mais lhe calharem, devo dizer o que é a relíquia...

Tossi, cerrei os olhos:

- É a coroa de espinhos!

Esmagada, com um rouco gemido, a Titi aluiu sobre o caixote, enlaçando-o nos braços trêmulos... Mas o Margaride coçava pensativamente o queixo austero; Justino sumira-se na profundidade dos seus colarinhos; e o ladino Negrão escancarava para mim uma bocaça negra, de onde saía assombro e indignação! Justos céus! Magistrados e sacerdotes evidenciavam uma incredulidade - terrível para a minha fortuna!

Eu tremia, com suores - quando o Padre Pinheiro, muito sério, convicto, se debruçou, apertou a mão da Titi a felicitá-la pela posição religiosa a que a elevava a posse daquela relíquia. Então, cedendo à forte autoridade litúrgica de Padre Pinheiro, todos, em fila, numa congratulação, estreitaram os dedos da babosa senhora.

Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei à beira do caixote, cravei o formão na fenda da tampa, alcei o martelo em triunfo...

- Teodorico! Filho! - berrou a Titi, arrepiada, como se eu fosse martelar a carne viva do Senhor.

- Não há receio, Titi! Aprendi em Jerusalém a manejar estas cousinhas de Deus!...

(continua...)

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