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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim d'essa semana tão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido; ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de sudoeste. Decidira não sahir - e desde as nove horas, sentado á banca, embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o bello ar de um principe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas, apesar de duas chavenas de café, de cigarettes sem fim, o cerebro, como o céu fóra, conservava-se-lhe n'essa manhã afogado em nevoas. Tinha d'estes dias terriveis; julgava-se então

«uma besta»; e a quantidade de folhas

de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete aos pés, davam-lhe a sensação de ser todo elle uma ruina.

Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idéas rebeldes, quando Baptista annunciou Villaça, que lhe vinha fallar de uma venda de montados no Alemtejo, pertencentes á sua legitima.

- Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapéo a um canto da mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de dois contos de réis... E não é mau presente, logo assim pela manhã...

Carlos espreguiçou-se, crusando fortemente as mãos por trás da cabeça:

- Pois olhe, Villaça, preciso bem de dous contos de réis, mas preferia que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma estupidez!

Villaça considerou-o um momento, com malicia.

- Quer v. ex.ª dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que receber assim perto de quinhentas libras? São gostos, meu senhor, são gostos... Elle é bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas dous contos de réis, são dous contos de réis... Olhe

que sempre valem um folhetim. Emfim, o negocio é este. Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braços cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villaça trazia (um macacão de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde de Torral e de porcos... Quando Villaça lhe apresentou os papeis, assignou-os com um ar moribundo.

- Então não fica para almoçar, Villaça? disse elle, vendo o procurador metter o seu rolo de papeis debaixo do braço.

- Muito agradecido a v. exa. Tenho de me encontrar com o nosso amigo Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem lá uma pertenção... Quer a commenda da Conceição... Mas este governo está desgostoso com elle.

- Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo não está contente com o Eusebiosinho?

- Não se portou bem nas eleições. Ainda ha dias, o ministro do reino me dizia, em confidencia: «O Eusebio é rapaz de merecimento, mas atravessado...» V. Ex.ª n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em Cintra.

- Sim, lá estava a fazer jus á commenda da Conceição.

Quando Villaça saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coçando a barba, desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareceu Affonso da Maia, ainda de chapéo, á volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma carta na mão, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio misturada ao seu correio. Além d'isso, esperava encontrar ali o Villaça.

- Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o Eusebiosinho - disse Carlos, abrindo a carta.

E teve uma surpreza, vendo no papel - que cheirava a verbena como a condessa de Gouvarinho - um convite do conde para jantar no sabbado seguinte, feito em termos de sympathia tão escolhidos que eram quasi poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos atomos em gancho de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avô que era um par do reino que o convidava a jantar, citando Descartes...

- São capazes de tudo, murmurou o velho.

E dando um olhar risonho aos manuscriptos espalhados sobre a banca:

- Então, aqui, trabalha-se, hein?

Carlos encolheu os hombros:

- Se é que se póde chamar a isto tabalhar... Olhe ahi para o chão. Veja esses destroços... Em quanto se trata de tomar notas, colligir documentos, reunir materiaes, bem, lá vou indo. Mas quando se trata de pôr as idéas, a observação, n'uma fórma de gosto e de symetria, dar-lhe côr, dar-lhe relevo, então... Então foi-se! - Preoccupação peninsular, filho, disse Affonso, sentando-se ao pé da mesa, com o seu chapéo desabado na mão. Desembaraça-te d'ella. É o que eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca póde ser homem de idéas, por causa da paixão da fórma. A sua mania é fazer bellas phrases, vêr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fôr necessario falsear a idéa, deixal-a incompleta, exageral-a, para a phrase ganhar em belleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela agoa abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase. - Questão de temperamento, disse Carlos. Ha sêres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um systema... Eu sou d'esses monstros.

- Diabo! então és um rhetorico...

(continua...)

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